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quinta-feira, 27 de março de 2014

DITADURA NUNCA MAIS!

Professor Silvio Prado

O golpe usurpador
Dos milicos do Brasil
Não aconteceu em março
E não foi nada varonil
Tendo como data histórica
Um primeiro de abril.

Temendo uma revolução
De caráter comunista
Uma gente bem fardada
E totalmente entreguista
Botando tropas na rua
Passou o país em revista.

E depois o que se viu
Foi a trágica aventura
Em que a vida brasileira
Sob os ferros da tortura
Conheceu de perto a dor
Que brotou da ditadura.

E foi assim desse jeito
Com tanta proibição
E muita gente sumida
Sob brutal repressão
Que um golpe militar
Se achou revolução.

E foi proibido pensar
Pensamento diferente
Do que pensava a farda
De um general ou tenente
Criando assim no país
Situação tão deprimente.

Em tempos de Guerra Fria
Instalou-se a ditadura
E pra que ela funcionasse
Não se abriu mão da censura
E muito menos do recurso
Sempre brutal da tortura.

Com o país enquadrado
Sob as ordens desse fato
Não podia o operário
Temendo um duro destrato
Tocar sua luta em frente
Através de um sindicato.

Nem podia na escola
Como muito se fez antes
De sempre forma altiva
Através dos estudantes
Repensar a  educação
Sem projetos alienantes.

O que foi visto na escola
E também no sindicato
Viu-se na literatura
Na imprensa e no teatro.
Também cinema e música
Amargaram esse destrato.

Mas felizmente o país
Tem uma tradição de luta
E mesmo que o regime
Exigisse outra conduta
Muita voz se levantou
Contra tanta força bruta.

E foi preciso coragem
Para encarar a ditadura
De generais rancorosos
Entregues a triste loucura
De reduzir nossa terra
À tão desastrada aventura.

Se eles queriam silêncio
E também submissão
Do povo então receberam
Quase sempre uma lição
Às vezes pela rebeldia
Vinda em forma de canção

E cantando a canção
De um país dilacerado
Onde a voz da esperança
Olhava sempre de lado
O povo não tirou o foco
Do amanhã tão aguardado.

E lutando como pode
Na construção desse dia
Não importando a arma
Que expressasse a rebeldia
Afugentou a noite escura
Que a ditadura exigia.

Muitos dentro da fábrica
E pelos bairros da cidade
Na imprensa alternativa
E campus da universidade
Ou pela guerrilha no campo
Não renunciaram a verdade.

Mas como diz o ditado
“Pingo d’água em pedra dura
De tanto seguir batendo
Tanto bate até que fura”
O povo de tanto bater
Derrubou a ditadura.

Já passado esse tempo
De muita dureza e tensão
Ainda se vê muita farda
Tomada de apreensão
Pedindo agora silêncio
Sobre uma grave questão.

E a questão colocada
Não possui nenhum sentido
Porque o Brasil não pode
Se fazer de esquecido
Das centenas de seus mortos
E tanto desaparecido.

Porque se hoje a nação
É uma democracia
Não tem porque ocultar
Em nome da anistia
Muitos crimes cometidos
E tão brutal selvageria.

Pois o Brasil se pergunta:
Qual foi o destino dado
Ao lutador Rubens Paiva
Homem digno, deputado,
Diante da própria família
Numa noite seqüestrado?

Como pode haver silêncio
Se na memória da nação
Percorre o grito angustiado
Exigindo a informação
Que possa levar ao corpo
Do comandante Osvaldão?

Onde estarão as ossadas
Do estudante guerrilheiro
E também do operário
E tanto anônimo brasileiro
Que reagindo à ditadura
Tiveram estranho paradeiro?

E se perguntas são feitas
Precisam ser respondidas:
Por que tão tristes verdades
Precisam ser escondidas?
E quem seqüestrou, torturou,
Pondo fim a tantas vidas?

Por que exigir silêncio
Se grita nossa memória
Pedindo outra leitura
Dos atos de uma escoria
Que ensangüentando o país
Fez atrasar nossa história?

Nada de fazer silêncio
Deletando do passado
Sombrio porões de torturas
Onde Fleury o delegado
Cometeu monstruosidades
Protegido pelo Estado.

Pois é injusto e incorreto
Usar da lei da anistia
Livrando torturador
Gente assim doentia 
Que à sombra do Estado
Cometeu selvageria.

No Chile e no Uruguai
E na Argentina também
Quem torturou e matou
Ou deu sumiço em alguém
Hoje enfrenta a justiça
Sofrendo a pena que convém

Em nome da democracia
Não importando a patente
Lá se puniu general
O brigadeiro e o tenente
E a nação passada a limpo
Segue sua vida em frente

Porém aqui o discurso
De muito sujeito fardado
É que o país corre riscos
E corre risco o Estado
Se tanto crime cometido
Algum dia for julgado.

E todo dia uma voz
Escapa de algum porão
Pressiona e bota medo
Como se nossa nação
Não resistindo à verdade
Preferisse a escuridão.

Mas até quando esse país
Vai suportar a impostura
De jamais poder punir
Os agentes da tortura
Que seqüestraram e mataram
Em nome da ditadura?

Até quando nossa terra
Que se diz democracia
Continuará evitando
Que se ponha à luz do dia
Os fatos de uma história
Cheia de selvageria?

Que tudo seja contado
Sem qualquer hipocrisia
E os valentões da tortura
Enfrentando a luz do dia
Possam ser sentenciados
Sem as bênçãos da anistia.

Que a JUSTIÇA seja feita
E a grandeza da VERDADE
Toque o coração da história
Transformando a realidade
Não permitindo entre nós
Gente sob impunidade.

E que todo arquivo oculto
Seja ao povo revelado
Pra que todo documento
Hoje em posse do Estado
Em público possa ser lido
E jamais ignorado.

Silvio Prado
cel: (12) 98169 9731

Taubaté