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domingo, 30 de março de 2014

PADRE TEQUINHO CONHECE D. COUTO?

Lá pelos meus 14 anos, fui uma das ovelhas do rebanho do pastor Padre Couto. A lembrança estava arquivada n’alguma gaveta esquecida de minha mente. A postura partidária de Padre Tequinho abriu-a.

O golpe militar era uma realidade brasileira desde 1º de abril de 1964. Morador da Vila São Geraldo, ignorava completamente o que significava o  movimento militar que derrubou o governo trabalhista de João Goulart - Jango.

Nesta época “trabalhava” como carregador de cesta no Mercado Municipal. Era um dos centenas de jovens da Vila São Geraldo sem perspectiva, sem saber o que fazer na vida por falta de informação e de escolas públicas – a mais próxima da Vila São Geraldo era o “Estadão”.

Mais de 90% dos moradores do bairro eram ex-operários da então recém falida Fitejuta. Os filhos dessa gente (meu pai era cobrador de uma loja de móveis), assim como eu, frequentávamos o chamado, na época, “Clube”.

Não era um clube de futebol.

Era um grupo de jovens que queriam “estudar para padre”. Alguns frequentaram o seminário por alguns meses em Lavras/MG. Outros, na segunda fase dos estudos, foram transferidos para Rio Negrinho/SC, onde há outro seminário da congregação do Sagrado Coração de Jesus.

Para frequentar o “Clube” era necessário que fôssemos “coroinhas”. Durante um ano, mais ou menos, usei batina para ajudar a celebração de missas, rezas e outras atividades eucarísticas. Decorei o “Credo” e outras falas da liturgia que era toda em latim.

Padre Couto era o nosso mentor, o homem que nos ensinava a viver com dignidade. Padre Couto era o pastor preocupado com suas ovelhas, que caminhava pelas ruas da Vila São Geraldo cumprimentando as pessoas até chegar á casa do fiel que o convidara para um café, um dedinho de prosa.

Por esta época, padre Couto foi tomar café uma ou duas vezes na rua Paraná, 38. O café oferecido por minha avó e tias era simples: café com leite, um bolo de fubá e pão com manteiga.

Se quisesse e aceitasse todos os convites, padre Couto atravessaria os anos tomando café, todos os dias, na casa de uma de suas ovelhas.

A voz calma, pausada, do pastor padre Couto acalentou muitas famílias que perdiam seus entes queridos e organizavam na própria casa o funeral de despedida.

Se padre Tequinho se preocupasse com suas ovelhas e não tomasse partido contra este ou aquele governo, teríamos um país mais justo e solidário.

A Igreja se comprometeu com o PSDB nas eleições presidenciais de 2010, inclusive imprimindo panfletos rancorosos contra a então candidata Dilma Rousseff, acusado-a, sem provas, de ser favorável ao aborto, entre outras barbaridades.

Se as Igrejas da Diocese de Taubaté não tivessem o envolvimento que tiveram na eleição municipal de 2012, talvez a história recente da política taubateana fosse outra.

Se os párocos taubateanos não tivessem divido o altar de Cristo com o atual prefeito de Taubaté, já naquela época acusado de participação em possíveis fraudes na FDE, influenciado fortemente a vontade de seu rebanho, o destino político desta urbe quase quatrocentona seria outro.

Sugiro, pois, ao padre Tequinho, que estude sobre a vida do grande pastor Padre Couto e aprenda que pregar a palavra de Cristo não é pregar a cisão política dicotomicamente, entre o bem e o mal.

Aprendi com Padre Couto que Cristo era um pregador socialista, embora nunca tenha usado termos como socialismo ou comunismo quando reunia, no Convento Sagrado Coração de Jesus, do qual foi reitor, os garotos da Vila São Geraldo para incentivar-nos a estudar para padre.

Ah! O verbete “babaca” não tem o tom ofensivo que ingenuamente as pessoas pensam que tem. Todo dia, em algum momento, dizemos que alguém é “babaca” por formular uma opinião, contar algo, se vangloriar dos próprios feitos, etc, etc.

Clique aqui para saber mais sobre a vida de Padre Couto e aqui para ler sobre a missa celebrada em 2012 na abertura do processo de sua beatificação.