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sexta-feira, 4 de abril de 2014

1964: FERIDAS ABERTAS

Celso Brum, sociólogo e professor

(Artigo publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Estive lendo alguma coisa sobre o golpe de 1964, com o qual foi interrompida a Democracia e, instaurando- se um regime à margem da civilização, o Brasil foi levado ao retrocesso institucional e viu postergadas as reais chances de um efetivo desenvolvimento, que se desenhava a partir das eleições de 1965, já implantadas as reformas de base. A desculpa para o golpe foi a “ameaça comunista” e todas as transgressões aos direitos humanos tiveram esta “ameaça” como justificativa. Não havia e nunca houve a menor possibilidade da implantação do comunismo no Brasil e o presidente João Goulart (um rico estancieiro, com terras a perder de vista) nunca pretendeu tal coisa. A bandeira do anticomunismo era (e continua sendo) a única desculpa para o golpe, articulado pela UDN (União Democrática Nacional, partido de direita, hoje encarnado pelo PSDB) e pelas elites brasileiras, das quais faziam parte os proprietários e editores dos veículos de comunicação de massa, ou seja, a “grande Imprensa”.

Além das bandeiras do anticomunismo, havia a bandeira do combate à corrupção. Essas bandeiras vinham sendo agitadas desde 1954, quando se tentou o golpe, evitado pela bala no coração de Getúlio Vargas. O golpe, vamos deixar bem claro, é uma instituição da direita brasileira: ele é tramado ininterruptamente. A grande estratégia da direita é o golpe e as justificativas são sempre as mesmas: em 1964, o golpe concretizou-se. O jornalista Mino Carta diz que “o golpe interrompeu um processo que levaria o Brasil mais longe do que hoje está”.

O golpe de 1964 é um capítulo da história, é um trauma terrível que não pode ser esquecido sem punição aos culpados ou sem perdão. E o perdão só pode existir depois de um mea-culpa.

Da África do Sul, um exemplo a ser seguido: não há perdão sem mea-culpa. Assim, os que cometeram crimes durante a ditadura, se querem o perdão, precisam pedi-lo. É fundamental que façam um mea-culpa exemplar.

Mas não é o que se vê. Os remanescentes da ditadura só que fazem é tentar justificar o injustificável, não reconhecem seus erros. Desta forma, as feridas ficam abertas e não é possível o perdão e uma verdadeira reconciliação.

Nos últimos dias, muito se falou dos 50 anos da ditadura militar, muita coisa já sabida e alguma coisa que era conhecida de poucos. Dentre as coisas sabidas, o apoio da “grande imprensa” ao golpe, apoio decisivo, diga-se. Naquilo que era do conhecimento de poucos ou que se pretendia relegar ao esquecimento está o que revelou o jornalista Juremir Machado da Silva (autor do livro “1964, golpe midiático-civil-militar”) em seu artigo na Carta Capital desta semana: “No Brasil, 1964 pode ser descrito como o ano da imprensa colaboracionista. Os intelectuais jornalistas traíram o compromisso com a verdade e com a independência, por desinformação, conservadorismo e ideologia. Alberto Dines, Antonio Callado e Carlos Heitor Cony ajudaram a derrubar Jango. O poeta Carlos Drumond de Andrade sujou as mãos com algumas mal traçadas crônicas destinadas, pós golpe, a chutar cachorro morto”. É triste saber que pessoas por nós admiradas, por outros motivos, tivessem um envolvimento no golpe, mesmo que, posteriormente, tivessem assumido outro posicionamento. A mácula ficará para sempre.

De minha parte, muito jovem que eu era em 1964, fui contra o golpe desde o primeiro momento. Já admirava o presidente João Goulart e concordava com as reformas de base, defendidas por Jango. Confirmei o que pensava do golpe quando, no dia 2 ou 3 de abril vi, na capa da “Última Hora” ou no “Diário da Noite”, uma foto do líder comunista, o grande Gregório Bezerra, de cuecas, com aqueles cabelos brancos, amarrado e com uma corda ao pescoço, numa carreta, sendo exibido nas ruas de Recife. Não tive dúvidas e, quando surgiu o MDB, em Taubaté, estava lá eu, entre os primeiros inscritos. Eu era da então chamada esquerda católica e, certamente por isso, não me aproximara do chamado “partidão” (o PCB de Luís Carlos Prestes). Na Faculdade, conversava com o pessoal da JUC (Juventude Universitária Católica) e, com essa turma, era a favor de Jango.


A memória às vezes nos trai, mas estou certo do que vi, na antiga TV Rio, o fatídico comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil. Ali, um João Goulart entusiasmado falava das reformas de base e de um novo Brasil, com justiça social. Os sonhos de Goulart só começariam a ser realizados a partir de 2003, com Lula.