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sábado, 5 de abril de 2014

ASSASSINO NÃO PODE VIRAR
NOME DE RUA, PRAÇA OU ESCOLA

Silvio Prado, professor

Os eventos sobre os 50 anos do golpe militar têm sido reveladores para a sociedade brasileira. Mesmo com filtragens e também distorções, a grande mídia não está conseguindo esconder da população informações que incomodam a gentalha obtusa que patrocinou o golpe e ainda vive das vantagens e privilégios proporcionados por ele. Muita informação, mesmo disponível em arquivos, não “conseguia chegar” até a grande mídia. Porém, nas últimas semanas acabou chegando.

Há muito se sabia que, por exemplo, o ex-governador Mário Covas teve sua primeira eleição par deputado financiada pelo dinheiro sujo que a CIA jogou no Brasil visando desestabilizar o governo João Goulart. Muita gente agora sabe, também, do esquema militar que o governo norte-americano, a partir do presidente Johnn Kennedy, montou para apoiar o golpe de 64.

Kennedy, em 1962, conversando na Casa Branca com seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, quis saber da possibilidade de invadir o Brasil e destituir João Goulart. As reformas de base proposta pelo presidente brasileiro contrariavam interesses norte-americanos no Brasil.

Mesmo depois de assassinado, a idéia de Kennedy foi assumida pelo presidente Lindon Johnson e resultou na famosa Operação Brother Sam. Por essa operação militar, na semana do golpe os Estados Unidos deixariam disponível aos brucutus fardados do Brasil uma imensa frota naval que se deslocaria do Caribe em direção ao litoral brasileiro. Essa frota de guerra vinha comandada pelo porta aviões nuclear Forrestal, mais seis destróieres, um porta aviões com  dezenas de helicópteros, um encouraçado, uma esquadria de aviões de caça, navios petroleiros portando milhares de barris de combustível, um navio transportando tropas e 25 aviões sobrecarregados de material bélico. Se houvesse resistência ao golpe, haveria ataques conjugados entre os golpistas brasileiros e as tropas americanas.

Independente dessa operação, alguns milhares de ativistas da CIA, especialistas em sabotagem e todo tipo de sujeira que desestabilizam governos, já estavam no Brasil, principalmente no Nordeste, num trabalho ativo contra o governo Goulart. Tais terroristas norte-americanos entraram no país disfarçados de professores, religiosos, profissionais liberais etc. No Piauí, foi construído um imenso campo de pouso para receber aviões baseados na Guiana Inglesa. Esses aviões estavam incumbidos de transportar e fornecer armamentos para combater a “revolução comunista brasileira” que, segundo analistas americanos, tinha tudo para começar pelo Nordeste.

Enfim, informações antes camufladas ou controladas, agora com os 50 anos do golpe militar estão expostas e colocam à luz do dia o aspecto sujo de muitas figuras que até ontem faziam pose de boazinhas e mereceram, entre nós, homenagens que as tornaram  nomes de ruas, praças, ete.

Pensando nisso, estou propondo por este artigo que o nome da Avenida John Kennedy, no Jardim das Nações, seja substituído por outro nome de personagens da nossa história que realmente tenham honrado o povo brasileiro. Kennedy, muito antes do golpe já propunha o que os militares fizeram após o seu assassinato. Além disso, naquele momento ele já trazia em seu histórico a tentativa fracassada de invadir Cuba e depor Fidel Castro. Sob seu governo, em abril de 1961,exilados cubanos, orientados pela CIA e treinados pelas forças armadas americanas, foram derrotados na Baia dos Porcos, sul de Cuba, e revelou ao mundo a verdadeira face daquele jovem presidente.

Também em seu governo, pelo menos 12 mil militares americanos já estavam no Vietnã preparando o terreno para que tropas estadunidenses travassem o mais sangrento conflito depois da segunda guerra mundial.  Portanto, por que ao invés de Avenida John Kennedy , o importante logradouro não possa ser chamado de Avenida Carlos Marighela, ou Carlos Lamarca, dois heróis que tombaram lutando contra a ditadura brasileira?  Ao invés de JK, porque não Avenida João Goulart, arrancado do poder e, depois, comprovadamente assassinado por envenenamento pelos agentes da chamada operação Condor? Ou Avenida Frei Tito, religioso esmagado física e moralmente por um delegado assassino chamado Fleury? Frei Tito, uma vez no exílio e não suportando as sequelas da tortura, preferiu o suicídio a viver sob o peso das  terríveis lembranças produzidas no inferno da tortura brasileira.

Enfim, muita gente digna pode oferecer o nome à avenida que hoje, para nossa tristeza, se chama JK.  Mas, pensando bem, a mesma idéia visando a troca de nome do importante local do Jardin das Nações pode ser aplicada a todos que sustentaram a ditadura e são hoje nome de rua, praça ou escola em nossa cidade. No bairro da Independência, tem uma escola municipal chamada Juvenal da Costa e Silva, um dos ditadores militares. Por que não tirar o nome desse brucutu fardado e substituí-lo pelo nome de Paulo Freire, educador perseguido pela ditadura e obrigado a sair do país para não morrer sob tortura em algum quartel brasileiro?

Precisamos, em nome da justiça, fazer essa pequena, porém importantíssima, revisão histórica expurgando de nossas ruas, praças e prédios públicos nomes vinculados ao brutal regime que perseguiu, prendeu, torturou, matou e desapareceu corpos durante 21 anos. Criminoso dessa espécie precisa sair da protetora versão oficial do Estado e ter sua história definitivamente contada. Se hoje seus parceiros e defensores resistem covardemente às tentativas de abertura dos arquivos militares, impedindo que a história seja conhecida, é oportuno que a população esvazie as cidades dos símbolos e nomes desse período de terror.

Portanto, Taubaté precisa fazer a sua parte. Quem gostaria de estudar numa escola, morar numa rua ou descansar em praças cujos nomes estejam ligados ao bando que seqüestrou, torturou, assassinou, fez desaparecer corpos, além de tantos outros crimes cometidos?  Assassino não pode e não tem o direito de virar nome de rua, praça ou prédio público.