Páginas

sexta-feira, 25 de abril de 2014

DESGRAÇA QUE TE QUERO
BEM DESGRAÇADA

Artigo publicado originalmente pelo Diário de Taubaté

Celso José de Brum, sociólogo

Fiquei pensando no que me disse um bom amigo (de boa vontade e inteligente, e, portanto, capaz de entender o que aconteceu no Brasil nestes últimos doze anos) que ainda espera que a oposição apresente suas propostas. Na oportunidade, respondi-lhe, sem rodeios: a direita (leia-se os que são da direita e os que servem à direita) não tem propostas. A direita quer e precisa desesperadamente é de lama, para chafurdar, e de desgraças para justificar uma mudança.

Não é preciso muito esforço para explicar: em 1954, a direita (através de seus corifeus aboletados na “grande imprensa”) criou o “mar de lama”, para derrubar Getúlio Vargas; a partir de 1955, a direita tentou golpes (de Jacareacanga e Aragarças ) e tentou desestabilizar Juscelino Kubitschek com ininterruptas acusações de corrupção, nunca provadas; em 1964, a direita conseguiu instalar uma ditadura militar no Brasil, alegando subversão e corrupção, sempre com o apoio – para o golpe – da “grande imprensa”; a direita elegeu (e, depois, defenestrou) Fernando Collor, no que a “grande imprensa” teve papel decisivo; a direita cerrou fileiras para a eleição de Fernando Henrique Cardoso e, depois, tomou conta da alma dele para sempre.

A eleição de Lula foi um acontecimento inesperado, ou seja, não estava previsto nos arcanos da direita. Só foi possível porque o governo do tucano Fernando Carlos Lacerda Cardoso foi catastrófico: a inflação estava em mais de 12%, o risco Brasil era de mais de 2.000 pontos, a taxa Selic estava na casa dos 30%, nossas reservas eram pífias (cerca de 17 bilhões de dólares, acrescidas por 31 bilhões tomados de empréstimo ao FMI), o salário mínimo era de 80 dólares, enfim, o Brasil estava quebrado.

É bom ressaltar que Lula era o plano B da direita institucional, o PSDB, que não queria mesmo (aliás, tinha dele um pavor patogênico) era o Ciro Gomes, que havia “jurado” (como faziam os matadores nordestinos de antigamente) os tucanos. A direita e a direita institucional (o PSDB) tinham certeza de que Lula e o PT iriam levar o Brasil (que, repito, estava quebrado) ao caos.

O que a direita e a direita institucional (o PSDB) não contavam é que o Brasil fosse crescer com Lula e com o PT. O que a direita e a direita institucional (o PSDB) esperavam que viesse a ser um hiato de grandes desgraças, acabou sendo o mais extraordinário período de prosperidade da história do Brasil.

A direita, a partir daí, faz o que sempre fez - sua especialidade - tenta o golpe. O golpismo é instituição da direita e a “grande imprensa” constituiu-se num cartel supostamente noticioso (eivados de supostas suposições) visando desestabilizar o governo. A direita não tem propostas. A direita quer o golpe. A direita não tem escrúpulos. Para a direita, o fim justifica os meios, por mais sórdidos que sejam.

O que esperar, então, da oposição (leia-se, os que são da direita e os que servem à direita)? Nada, além do denuncismo. Não há propostas. Não há propostas, repito. Não há propostas, insisto. Não há propostas, insisto em repetir. Só denuncismo.

A refinaria de Pasadena é o mote do momento. Como não acredito na “grande imprensa”, vou esperar que o tempo traga a verdade sobre o assunto. Mas, ressalto, com indignação: que moral tem os tucanos para falar – como cínicos fariseus que são – de prejuízo da Petrobras, eles que, no governo de Fernando Carlos Lacerda Cardoso, estiveram prestes a privatizar a Petrobras, pela bagatela de 11 bilhões de dólares. E que haviam privatizado a Vale do Rio Doce – fundamental patrimônio estratégico nacional – pela esmola de 3 bilhões de dólares quando, na época, o seu valor era de mais de 50 bilhões de dólares. Esses tucanos safados (e seus agregados medíocres, servidores da direita) não querem moralizar nada. Eles querem o golpe.

Permitam-me, os meus caros, raros, fiéis e inteligentes leitores, que eu me lembre dos meus (bons) tempos de professor de Estudos dos Problemas Brasileiros: a direita brasileira é legítima e escarrada sucessora das práticas coloniais. Os nossos primeiros colonizadores não vieram ao Brasil para construir uma nação (como fizeram os calvinistas que foram para os Estados Unidos). A ação dos primeiros colonizadores era só predatória, visava, apenas, o enriquecimento.

A direita brasileira não tem Pátria. Não visa o progresso do Brasil, nem de seu povo. O objetivo da direita é o poder e o que o poder vai fazer para o seu próprio benefício. O povo é apenas estatística para a direita ou, no máximo, mão de obra barata, menos considerável que uma máquina capaz de fazer o trabalho de muitos. A direita é predatória e coloca a Nação abaixo – bem abaixo- dos seus interesses. Essa é a conceituação básica da direita brasileira. No mais, são as consequências, das quais a política é apenas um detalhe. É preciso dizer que o poder, no Brasil, é esmagadoramente de direita, o poder real, bem entendido. O PT ocupa, apenas, um nicho, importante, é verdade, mas um nicho do poder.

A esquerda, digo, a esquerda consciente, é uma minoria, e põe minoria nisso. A esquerda católica, da qual faço parte, então, nem se fale, é ultramínima minoria. Nós fomos buscar nossa inspiração nos Atos dos Apóstolos, capítulo 2, versículos 44 e 45 e nas encíclicas do Papa João XXIII.

Enfim, nós da esquerda consciente, ainda somos vozes clamando no deserto.

O PT é a esquerda possível. Sua obra em favor do Brasil e do povo brasileiro é histórica e verdadeiramente extraordinária e grandiosa. Mas o PT cometeu um erro, por omissão: não conseguiu criar uma consciência política nos beneficiários dos seus programas. As classes emergentes estão, portanto, indefesas diante das práticas e costumes (e da demagogia) que a direita faz expandir pelos seus corifeus da “grande imprensa”. Isso pode custar caro ao PT. Nas manifestações populares de junho de 2013, por exemplo, grande parte dos manifestantes era de beneficiários ou filhos de beneficiários dos programas sociais do PT.

Sabendo-se que essa consciência política é absolutamente indispensável e fundamental, pergunta-se: o que vai fazer o PT, daqui em diante, para corrigir esta sua grande falha?

Aguardemos os próximos capítulos.