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segunda-feira, 28 de abril de 2014

EPIDEMIA: A CULPA NÃO É
DO MOSQUITO DA DENGUE

Silvio Prado, professor

A namorada do Rafael está com dengue e o casal que recentemente foi morar em sua rua, lá na Voluntário Benedito Sergio, também. O vizinho do lado direito da casa onde mora o rapaz ontem à noite já reclamava de horríveis dores pelo corpo e uma indisposição danada. Hoje, pela tarde, com uma cara de morto vivo, o vizinho confirmou: foi picado pelo desgraçado Aedes aegypti.

Com dengue também está a esposa do dono da mercearia da esquina, aquele que na semana passada teve pela frente dois pivetes, às cinco da tarde, apontando um cano de metal bem na sua cara e, depois, em disparada, saíram levando os únicos cinqüenta reais que havia no caixa. A mulher desse pequeno comerciante, Dona Rita, evangélica da Congregação Cristã do Brasil disse que na igreja que freqüenta a dengue anda fazendo estragos e além dos fiéis já pegou pelo menos dois pastores.

Na baixada do Ipanema, mais ou menos depois do campo do Juventus, dona Marilza, desesperada, não quer ver repetida a experiência que teve em 2012. Na época, picada pelo mosquito a pobre viúva ficou de tal jeito que quase acaba subindo a Humaitá para ficar ao lado do marido, segundo ela, desencarnado porque chegou a hora, mesmo que tenha sido por uma das balas que sobrou da briga de um boteco próximo e acabou alojada bem no lado esquerdo do peito.

Dona Marilza, beirando os setenta, diz que quer viver muito mais. Por isso, deseja distância do mosquito da dengue, toma três ou mais banhos por dia e em cada banho gasta quase um sabonete na esfregação que faz pelo corpo. Ela acredita que o cheiro bom deixado pelo sabonete pode espantar o bichinho atrevido. Pelo corpo ela já passou também todo tipo de repelente, principalmente álcool pelas pernas, e tem exagerado no uso do desodorante. Um dos netos da velha senhora, mais sensível, não suporta o cheiro da avó, pede desculpas, e tem procurado evitá-la.

Na parte alta da cidade, uma conhecida catadora de reciclável amargou uma semana de cama depois da picadura do mosquito. Antes dela, foi o filho mais velho, ferramenteiro de uma montadora local. O problema é que ele, diferente da mãe, detesta água e se deixasse trocaria os cinco litros diários, além da medicação recomendada pelo médico, por um bom fardo de Bavarias. Quase que o metalúrgico bateu as botas.

Nada diferente ocorre na Chácara Silvestre ou no Santa Teresa. Não tem rua onde não tenha uma família com alguém que tenha experimentado a picada do mosquito. A verdade é uma só: Taubaté hoje é um vasto território onde o mosquitinho transmissor da dengue faz a festa e sai picando todo mundo em todo lugar. Ele se sente muito à vontade e até aguarda que alguém na câmara lhe ofereça o titulo de cidadão taubateano. Quem duvida?

A cidade anda cheia de focos reprodutores do mosquito e os funcionários da prefeitura encarregados de combatê-los, diante da crescente epidemia, podem muito pouco. A verdade é a seguinte: é muito fácil xingar e esculhambar o Aedes aegypti e responsabilizá-lo pela epidemia. Sua verdadeira função ele tem cumprido direitinho, pois não se pode esperar que ele contrarie sua natureza. Nós é que pisamos na bola escolhendo uma pessoa errada para combatê-lo.

Além do mais, somos uma cidade que, além das escolhas políticas erradas que fazemos, somos também um bando de medrosos. Quero ver quem tem coragem de denunciar a lagoa de água parada onde flutuam os poucos neurônios do prefeito Ortiz Junior, autoridade que sabia que uma epidemia da dengue se anunciava para Taubaté e nenhuma providencia foi capaz de tomar.