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sexta-feira, 18 de abril de 2014

JESUS E OS CRISTÃOS

Celso Brum, sociólogo

Hoje é sexta-feira santa. Sou católico e como católico, não deixarei de seguir a tradição de meus antepassados: “hoje é dia de beijar o santo”. Para escândalo e escárnio dos meus amigos evangélicos ou indiferentes ou ateus, irei beijar a imagem de Jesus morto. Antigamente, havia fila, agora a gente pode demorar-se diante da imagem. E pensar.

Muitos teólogos interpretam que Jesus não teria pensado numa igreja, ou seja, numa instituição como a que hoje existe, o que vale para todas as igrejas cristãs. Jesus trouxe um modo de vida e, portanto, seu evangelho contém as regras essenciais para que os seres humanos possam viver em perfeita harmonia e felizes. Foi inevitável, no entanto, que surgisse a instituição “igreja” para a preservação e continuidade das ideias cristãs. Jesus, para a maioria dos cristãos, é Deus. Mas a sua igreja é uma instituição humana e sendo humana, está sujeita tanto à grandiosidade como à pequenez.

Vi, no início desta semana, um filme sobre Hipátia, filósofa, matemática e astrônoma, nascida no ano 351 (ou 370?) em Alexandria. Era uma intelectual notável, mas, por ser pagã, foi torturada, morta e despedaçada por um grupo de cristãos, possivelmente seguidores do bispo Cirilo de Alexandria. Esta ação, com toda a certeza, não está justificada em nenhuma parte do evangelho de Jesus.

O que dizer das cruzadas, das atrocidades cometidas contra os árabes à sombra da cruz de Cristo, ocorridas no século XI? O que dizer da santa inquisição( ou simplesmente inquisição, porque de santa não tinha nada) em que as pessoas que pensavam diferente, eram torturadas e mortas? É importante ressaltar que estas barbaridades, que duraram mais de 3 séculos (do século XV ao século XVIII) também foram praticadas por protestantes da Alemanha e da Inglaterra contra católicos e anabatistas. Certamente, as cruzadas e a santa inquisição não estavam – e nunca estarão - justificadas no evangelho de Jesus.

Jesus certamente não aprovou que seu representante na terra, o Papa Pio XII, não tivesse feito uma declaração condenando o nazismo e o holocausto, embora a gente queira compreender a situação do Vaticano dentro de uma Itália fascista e aliada à Alemanha nazista.
Tudo indica que o Cristianismo, ou seja, as estritas ideias contidas nos Evangelhos, tem sido pouco praticado nestes 20 séculos de existência. Ou, para sermos otimistas, têm sido praticadas por indivíduos e grupos, um tanto quanto à margem da igreja institucional: São Francisco de Assis que o diga e o padre jesuíta Teilhard de Chardin e Dom Hélder Câmara, que não me deixem mentir.

Politicamente, as igrejas cristãs (a Igreja Católica e as igrejas protestantes, hoje chamadas evangélicas) têm uma longa relação de proximidade e convívio (e até apoio) com o poder estabelecido. Ou seja, são quase sempre conservadoras. Isso me aborrece. Ainda mais que, estou certo, muito certo e certíssimo, Jesus era um contestador. O conservadorismo das igrejas cristãs, portanto, quase sempre, não é cristão.

Na última eleição presidencial, em 2010, por exemplo, os dignatários da Igreja Católica ( da CNBB) fizeram distribuir uma mensagem, no mínimo, infeliz. Era desinformada, anti-histórica e, lamentavelmente, preconceituosa. A esmagadora maioria dos católicos, como eu, não mudou o seu voto, diante do visível partidarismo da mensagem.

Tudo isso leva-me a Teilhard de Chardin, que foi um grande teólogo, um dos maiores da Igreja Católica. O Papa Pio XII nunca autorizou que ele editasse seus livros e ele foi obediente até a morte. Convidado por um ex-dominicano para abandonar a Igreja, Teilhard escreveu-lhe uma carta, da qual selecionei alguns trechos:

“Apenas devo dizer que tanto quanto sinto na Igreja certas inadaptações e certas caducidades, reconheço-me também impotente, não qualificado, para ousar a julgá-la definitivamente no que ela tem de geral ou , se preferir, de axial. A Igreja representa uma canalização tão poderosa, tão radicada (em todo o passado humano) daquilo que é a seiva moral e “sublimadora” das almas – ela manifesta (apesar de mesquinharias acidentais e momentâneas) uma tal capacidade de fazer desabrochar harmoniosamente a natureza humana – que eu pensaria estar sendo infiel à Vida se abandonasse uma corrente orgânica como essa. (...)..não posso me impedir de ver que, afastar-me da corrente religiosa do catolicismo constituiria para mim uma incoerência biológica.

Nem tudo nela me agrada da mesma maneira, mas também nem tudo nela é definitivo, e fora dela eu não vejo nada que seja tão conforme às tendências e esperanças que sinto. Mesmo admitindo que esta forma religiosa esteja mais longe da Verdade do que supomos, restaria o fato de ser ela a aproximação mais perfeita possível desta Verdade e, para subir mais alto, é preciso ultrapassá-la, crescendo com ela e não abandoná-la (...) O Cristo sua vida, seu conhecimento) está depositado na Igreja toda ( fiéis e pastores) de todos os tempos.(...) Creio que a Igreja é uma criança ainda. O Cristo, do qual ela vive, é imensamente maior do que ela o imagina; e, no entanto, daqui a milhares de anos, quando a verdadeira face do Cristo tiver sido descoberta um pouco mais, os cristãos de então recitarão ainda, sem reticências, o Credo”.
Diante da imagem do Senhor morto, lembrar-me-ei que fui congregado mariano e sou franciscano disperso( frequentei, quando mais jovem, a Venerável Ordem Terceira, hoje Ordem Franciscana Secular). Lembro-me como cantava: “ São Francisco, pai querido/ grande amigo do Senhor/escutai nosso pedido/ sêde nosso protetor”. E também: “ São Francisco, não deixe que eu meça/ ao amor sacrifícios, oh não/ tu que tens, nos teus membros impressa/ de Jesus a sagrada paixão”.

Diante da imagem do Senhor morto, vou lembrar também de Nossa Senhora de Guadalupe, a padroeira da América Latina e da música em sua homenagem: “ Virgem tão serena,/ Senhora desses povos tão sofridos/ Patrona dos pequenos e oprimidos/ derrama sobre nós as suas graças. (...) Ensina a quem tem muito a partilhar/ ensina a quem tem pouco a não cansar,/ E fazei nosso povo caminhar em paz./(...) Ensina que a justiça é condição/pra construir um mundo mais feliz e mais irmão/ E fazei nosso povo conhecer Jesus”.

Diante da imagem do Senhor morto, pedirei à Santa Rita de Cássia, a santa dos impossíveis, que interceda junto a Deus, para afastar o perigo do fascismo, inerente ao conservadorismo.

Diante da imagem do Senhor morto, finalmente, rezarei contrito: “Mostra-me, Senhor/ Teu caminho de amor/ mostra a estrada que conduz/ para a vida e para a luz./ E as pegadas neste chão/vão mostrar a direção/ que aponta para o sol da libertação”.

Amém