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segunda-feira, 14 de abril de 2014

LADRÕES DE GALINHA E JUSTIÇA

A matéria exibida pelo Fantástico (Rede Globo) na noite de domingo, sobre o julgamento de um ladrão de galinha pelo STF, não me espantou.  Os leitores deste blog tiveram acesso à informação do julgamento dois dias antes.

Leia aqui o artigo do jurista Luiz Flávio Gomes acerca do assunto, publicado na sexta-feira (11/04) neste blog. Escrevemos que seria um julgamento surreal. O mesmo termo foi empregado pela apresentadora do programa, no fechamento da matéria.

A reportagem do Fantástico, mais ampla, com mais detalhes e entrevistas, remeteu-me aos meus tempos de policial.

Em 1992, investigador de polícia, trabalhava no 2º DP (Estiva).

Uma mulher de vinte e poucos anos foi apresentada na Delegacia sob a acusação de haver furtado um desodorante e um pacote de margarina no shopping – alguém há de se lembrar que havia um supermercado no Shopping Taubaté.

Conversei com o delegado titular do distrito policial para demovê-lo da ideia de lavrar o flagrante. Para júbilo dos policiais que conduziam a mulher, não o convenci. O flagrante foi lavrado e a mulher acabou presa.

O fato voltou a repetir-se dois anos depois. Era plantonista no 1º DP (Avenida JK). Calor, noite de sábado tranquila para um plantão policial.

Por volta das 23 horas chegam os policiais que atuavam na ronda.

Apresentaram um rapaz, maior de idade, operário de fábrica, e cinco jovens, todos menores de idade.

Acusação: estavam todos na casa do “de maior” fumando maconha.

A ideia dos policiais era prender o “de maior” em flagrante por tráfico e corrupção de menores porque portavam uma bagana de cigarro de maconha.

Detalhe: eram todos vizinhos, lá pelos lados da Independência.

Deu o que fazer convencer os policiais a não lavrar o flagrante. O delegado plantonista nem ficou sabendo da ocorrência porque não o chamei.

Argumentei que “jogar” um trabalhador no xadrez por causa de uma bagana não resolveria o problema do tráfico nem combateria o vício.

Pior: o trabalhador seria demitido da fábrica e, aí sim, poderia entrar para a senda do crime.

Sem contar a mobilização dos policiais civis para lavrar o flagrante: indiciamento do “de maior” com seu respectivo interrogatório e auto de qualificação, oitiva dos menores envolvidos na ocorrência com os  autos de qualificação de cada um, auto de apreensão da bagana e, no fim, a liberação de todos.

O “de maior” seria trancafiado junto a marginais perigosos e, por que não?, ser abusado sexualmente.

Convenci os policiais que melhor faríamos se entregássemos os menores para seus respectivos pais. Entendia que o problema era de orientação, não de vício.

Resultado: os pais ficaram agradecidos com atitude dos policiais. Se alguém levou alguns cascudos, foi em casa.

Lembrei-me destas e outras passagens de minha carreira policial e conclui, após assistir à matéria do Fantástico, que evitei o cometimento de uma injustiça com um trabalhador.

Hoje os tempos são outros. Maconha é droga de “careta” e há quem veja com bons olhos sua liberalização, como ex-presidente FHC.

Abaixo, o vídeo com a matéria do Fantástico.