Páginas

terça-feira, 1 de abril de 2014

PADRE TEQUINHO MENTIU PARA SEUS FIEIS

Silvio Prado, professor

Discordo do Irani Lima. O padre Tequinho, ou Trequinho, não é um babaca. Na minha opinião, Tequinho pode ser um grande ignorante. Se não for, mesmo sendo religioso e vivendo o dia inteiro sob orações e invocação a Deus, deve ser um enganador ou mentiroso. Por quê? Ora, como é que um cidadão que se torna padre, depois de pelo menos dez anos trancado num seminário e lendo diariamente pilhas de livros, jornais, revistas, vivendo num meio intelectual privilegiado, convivendo e usufruindo do saber e da experiência  de especialistas em áreas fundamentais do conhecimento humano, termina seus estudos e não consegue definir com clareza o que seja comunismo? Não é possível que a Igreja Católica, tão rigorosa, esteja falhando no importante oficio de formar seus quadros dirigentes negando-lhes um mínimo de clareza sobre conceitos e definições fundamentais da vida política moderna.

Sabemos que a Igreja comandada pelo papa Francisco passa por uma crise que envolve o Vaticano em escândalos que abarcam lavagem de dinheiro do crime organizado, assassinatos misteriosos e pedofilia. Mesmo descendo essa pirambeira moral, que parece interminável, a Igreja ainda tem primado pelo zelo na formação intelectual dos que  se propõem pregar sua mensagem. Por isso, não acredito que o padre Tequinho seja um babaca, como disse o Irani. Acho que o padre de São Luiz do Paraitinga, que sabe muito bem o que é comunismo, distorceu um conceito, agiu de má fé e mentiu para seus fieis quando pediu para que eles rezassem pela “queda do comunismo em nosso país”. Se não é babaca, nem ignorante, o padre, pelo menos nesse conselho aos fieis,  portou-se como  um enganador, mentiroso.

Ora padre, aponte um só dado que exemplifique a existência de comunismo no Brasil. Comunismo numa terra onde os bancos são privados e assaltam o povo com os juros mais escândalos do mundo? Comunismo onde o acesso a terra é privilegio apenas dos magnatas do agronegocio? Comunismo onde, ao invés de servir aos interesses gerais da população, os meios de comunicação servem apenas aos interesses dos que controlam a economia? Que estranho comunismo é esse, onde a desigualdade social é das mais vergonhosas do mundo?

Que o padre peça para que seus fieis rezem pela queda do PT nas próximas eleições, não tem problema nenhum porque o PT, sendo uma coisa real, não tem como fugir daqueles que o adoram ou detestam, mesmo que esse ódio ao PT expresse preconceitos contra todo  poder que um dia tenha emanado das classes mais simples do país. O PT, como todas as organizações populares ou de esquerda, não estranha esse ódio, mesmo que ele saia das sombras de uma sacristia alimentada pelo dízimo dos mais pobres.

O que não pode é um religioso, muito bem preparado durante anos, sair induzindo o povo a acreditar no que não existe, estimulando a prática da mentira exatamente no momento sublime em que o fiél, na intimidade de sua casa, põe a mão no terço, invoca a Deus e, sob a força moral de uma batina, suplica pelo desmoronamento de algo que não existe. Não se pode esperar que um padre como Tequinho, com formação carismática e mais dado a cânticos, danças e rezas do que ações sociais que transformem de fato a sociedade, consiga enxergar a realidade de outra maneira. Mas não se pode admitir que o povo, que paga o dizimo e sustenta os privilégios da Igreja, mesmo sem o direito de emitir qualquer opinião sobre os rumos dessa instituição, seja ludibriado pelo discurso que vem do altar.

Quem acessou o Blog do Irani e acompanhou o debate que se deu depois que o padre enganador foi chamado de babaca, pode ver uma fileira de gente anônima fazendo a defesa do religioso. Quem será essa gente, sempre anônima, que fez a defesa do padre, defende valores da família, da igreja, mas nunca pode mostrar o rosto e nem divulgar o nome? Ora, quem defende o que moralmente é aceitável não tem necessidade de se ocultar atrás da palavra anônimo. Traficantes, ladrões, bandidos, porque são gente criminosa, por uma questão de segurança e sucesso de seus negócios escusos, precisam mesmo ocultar o rosto, o nome e também o que fazem. Mas quem faz a defesa pública de um padre, mesmo que ele tenha induzido seus fieis ao ato da mentira, tem a obrigação moral de mostrar o rosto e o nome, contribuindo assim para um clima de verdadeira transparência nos debates públicos. Quando se defende gente que não tem o rabo preso com qualquer sujeira, fica esquisito demais se apresentar travestido de anônimo.

Na verdade, nesse debate poucos mostraram o nome e a cara, entre eles o brilhante jornalista Barbosa Filho e o vereador João Vidal. Barbosa Filho fez questão de colocar Tequinho diante do papa Francisco, que se conseguir levar um pouco de luz à igreja certamente provocará intermináveis calafrios no padre de São Luiz do Paraitinga. João Vidal, na sua eterna postura de católico exemplar, saiu em defesa do padre e do rebanho católico, atitude vinculada ao seu projeto de ampliar entre os fieis católicos sua base eleitoral.

Enfim, pobre padre Tequinho, defendido publicamente por político demagogo e por uma raça de anônimos, verdadeiros  encapuzados, uma espécie de  black bloc da Igreja, que todo cidadão razoavelmente informado conhece bem a origem e a procedência e, por essa origem e procedência, não merecem o respeito de ninguém.

Não tenho dúvidas que o padre Tequinho, se fosse contemporâneo dos militares que deram o golpe em 1964, se sentiria muito a vontade para abençoar e também participar dessa aventura que gerou 21 anos de prisões arbitrárias, torturas, mortes e desaparecimento de corpos. E já que o padre resolveu politizar o terço de seus fieis, sugiro que na próxima semana, como tema para o primeiro mistério, ele os aconselhe a rezar pela localização dos muitos mortos e desaparecidos da ditadura militar, ditadura que, tenho certeza, pela bobagem de sua declaração, o padre apoiaria com gosto. Porém, aviso que muitos desses mortos e desaparecidos foram comunistas, mas que, com certeza, já receberam não só orações, mas também atos de solidariedade de religiosos de grande fé e exemplos inquestionáveis, como Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldaliga etc.

Silvio Prado