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terça-feira, 22 de abril de 2014

PERDAS

Silvio Prado, professor

Fico triste quando lembro do Osmar Santos, sua voz quase elétrica, quase incendiária, repleta de criatividade e bom humor, nas transmissões esportivas pelas emissoras em que passou. Hoje, infelizmente, ele está calado.

No inesquecível comício das Diretas, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, diante de mais de um milhão de pessoas, mesmo anunciando grandes feras da política nacional e gente incomparável na arte do discurso político, Osmar  Santos não ficou por baixo e cumpriu o seu papel como se estivesse diante de um estádio cheio num jogo de grande decisão.

Ele, em nenhum momento da manifestação, deixou a emoção daquela massa imensa refluir. Não esqueço com que carinho anunciou Taiguara, um dos compositores mais odiados e perseguidos pela ditadura. Quando anunciou a fala de Lula, os prédios das imediações daquele Vale pareciam balançar e prontos para cair.

No meu entendimento, Osmar Santos, na sua locução, mostrava plena identidade com o modo de ser daqueles que gostam de futebol e o discutem acaloradamente em qualquer lugar, principalmente nos bares e botequins mais chinfrins do país. Ele não era só futebol, mas identidade com esse algo muito maior que eternamente toca a alma do país.

Porém, um dia, numa estrada paulista, Osmar foi vítima de um acidente criminoso, ficou em coma por vários dias e milagrosamente sobreviveu. Hoje ele expõe certamente a mais dura seqüela suportada por alguém que tinha na fala a maior expressão de sua arte. Penso que sem a sua voz as transmissões esportivas brasileiras caíram num vácuo de muita apelação e pouca criatividade.

Agora, para completar a tristeza no cenário esportivo, desaparece Luciano do Vale, homem de televisão e não do rádio, mas com o mesmo impulso criativo e generoso de Osmar Santos. E, portanto, o vazio da criatividade e da fala que interpretam as imagens de uma partida de futebol parece agora mais ampliado.

Por essas coisas e fatos é que acho o Brasil, apesar de recheado de festas e grandiosas comemorações de pura alegria, um país fadado à tristezas, pois perde, inexplicavelmente, sempre muito cedo, personalidades identificadas com o modo de ser e de expressar de seu povo. Olha que eu só falei de Osmar Santos e Luciano do Vale, e nem de longe toquei em Elis Regina, Gonzaguinha e tantos outros que tinham ainda tanto a fazer e, principalmente, dizer, e foram calados pela fatalidade.