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quinta-feira, 1 de maio de 2014

A PERGUNTA DEMOLIDORA:
AYRTON SENA, HERÓI DE QUEM?

Professor Silvio Prado

(Texto extraído do Facebook)

Infelizmente, pouca gente no Brasil conhece o grupo Teatral União e Olho Vivo, também conhecido pela sigla TUOV. Um de seus idealizadores, Idibal Piveta, advogado de presos políticos da ditadura, mas preso também pelos militares devido ao teatro de caráter político-popular que o TUOV sempre fez, no dia de 31 de março passado, quando o golpe militar completou 50 anos, deu um depoimento no ato realizado na delegacia da rua Tutóia, em São Paulo, onde muita gente foi covardemente torturada e morta.

Quem ouviu o depoimento emocionado de Idibal pode ter uma rápida idéia do que tenha sido a perseguição ao União e Olho Vivo e, de forma bem direta, a todo agrupamento cultural que não disse amém aos brucutus das forças armadas golpistas. Já sabemos bem dos estragos que a censura fez, principalmente na música popular, mas não sabemos que grupos como o TUOV chegaram a ter cenários e toda a parafernália técnica necessária ao funcionamento de suas obras completamente destruídos, além de seus integrantes presos e torturados.

Atualmente, o grupo apresenta um trabalho de criação coletiva chamado “A Cobra Vai Fumar”, percorre o Brasil e tenta contar o outro lado da vida dos pracinhas brasileiros que foram, na Segunda Guerra Mundial, lutar na Itália ao lado das forças que se opunham ao nazifascismo. “A cobra vai fumar” mostra as desgraças da guerra e muito daquilo que oficialmente o país não admite que aconteceu com os vinte e cinco mil brasileiros obrigados a lutar em território italiano.

Num momento muito especial da montagem, todo o elenco teatral, extremamente emocionado, canta um samba que faz referência ao heroísmo dos pracinhas brasileiros que tombaram na Itália. De autoria de Wilson Batista e Germano Caetano, o samba Comício em Mangueira tem um refrão que resume admiravelmente o que seja um herói.

“Heróis são aqueles
que tombaram por nós.”

Lembrar desse atual trabalho do TUOV, e principalmente do revelador refrão do samba citado, é extremamente importante nesses dias em que a Tevê Globo e uma grande parte da grande mídia fazem uma ofensiva para que o povo brasileiro engula Airton Sena como um dos nossos grandes heróis.

Completando agora neste primeiro de maio 20 anos de sua morte, em Imola, na Itália, a mídia não mede espaço para colocar Airton em cena. Tudo bem que ele era um bom moço, bem aparentado, determinado, cheio de namoradas bonitas e gostosas, além de excelente piloto que, sob o som de uma musiqueta até bonita, encheu as manhãs vazias de muitos domingos com vitórias em pistas de corrida, nunca deixando de carregar e fazer tremular babacamente uma bandeirola brasileira.

Numa dessas manhãs, devido a uma fatalidade que os produtores de seu carro não souberam evitar, lá se foi de maneira trágica o moço simpático que, mesmo presenciando durante os treinos do dia anterior a morte de outro piloto, entrou domingo na pista como se nada tivesse acontecido. Como bom garoto propaganda das empresas que o patrocinavam, juntamente com os pilotos das outras marcas, tentou cumprir o seu papel nesse esporte movido por montanhas de dólares e, nessa triste missão, desapareceu. Tudo isso num primeiro de maio, data histórica muito cara aos trabalhadores do mundo inteiro.

Ora, em Chicago de 1886, portanto, 128 anos antes da morte do piloto Sena, tivemos o movimento grevista que exigia dos patrões redução da jornada de trabalho para oito horas. Foi desse movimento que saíram os mártires operários de Chicago, todos enforcados por contrariar os interesses do patronato e do capital. Esses de fato, como milhares de outros que se atreveram a confrontar interesses poderosos e mudar a história, tombaram por nós, como diz o samba de Wilson Batista e Germano Caetano. Portanto, é a essa gente heroicamente incomparável que pertence o Primeiro de Maio, data internacional dedicada ao trabalhador e suas lutas, e não ao trabalho.

Assim, é necessário perguntar: em Imola, Airton Sena tombou por quem? Ora, por nada e por ninguém. Se tombou, só se foi pelos coxinhas, essa raça viciada nas muitas bobagens e drogas que a grande mídia incansavelmente produz para preencher cérebros esvaziados.

Especialista em criar heróis sem nenhum conteúdo, a mídia brasileira comandada pela rede da família Marinho parece ter dado ao seu jornalismo o mesmo perfil de suas novelas. Assim, segue criando ficção de péssima qualidade e tentando recriar a história à sua imagem e semelhança. Agora, portanto, é a vez de Airton Sena, um herói de nada e de ninguém. O próximo, quem será?

NOTA DA REDAÇÃO: A pergunta do professor Silvio Prado é pertinente. Ayrton Sena da Silva é elevado à condição de herói nacional por sua morte trágica. Alguns jornalistas dizem que Sena foi o “maior piloto brasileiro de todos os tempos”. É uma classificação questionável. Sena e Fittipaldi foram bicampeões mundiais de Fórmula Um. Piquet foi tricampeão. Emerson Fittipaldi foi o primeiro brasileiro campeão de Fórmula Um e de Fórmula Indy.

Qualquer pesquisa que se faça hoje inevitavelmente terá Sena como vencedor na categoria “maior ídolo” do esporte nacional. Esquecem de Pelé, talvez porque ele seja mundialmente reconhecido como o melhor jogador de futebol de todos os tempos.

Fittipaldi e Piquet também foram ídolos mundiais do automobilismo e tão bons pilotos quanto Sena. Os títulos que ganharam provam isso. Sena Fittipaldi sempre foi amáveis com a imprensa. Piquet não.

Ganhou da mídia o “troféu limão” por sua ousadia em dizer o que pensava e por não exibir a bandeira nacional após suas vitórias como se ela fosse uma conquista de todos os brasileiros.

O paroxismo pela morte prematura de Ayrton Sena foi exacerbado pela TV, que criou uma comoção nacional em torno do desastre automobilístico que vitimou o piloto brasileiro, como tantos outros antes dele.

Naquele domingo (1º de maio de 1994) fui à Capital cobrir um jogo entre Palmeira e São Paulo. O estádio inteiro chorava a morte de Sena. O Morumbi estava lotado e não faltaram as justas e merecidas homenagens ao piloto.

Não me abalei com a derrota tricolor (3 a 2), mas lamentei a morte precoce do piloto brasileiro. Vinte anos se passaram daquela data até hoje. A mídia continua sua busca por ídolo que mobilize as massas. Tentou com Barrichello, mas ele não correspondeu.