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quinta-feira, 15 de maio de 2014

BOLINHO DE CHUVA

Camões Filho, jornalista e pedagogo

Há algumas semanas choveu e esfriou um tiquinho. Era uma daquelas tardes modorrentas de abril e eu me peguei lembrando-me dos meus tempos de criança. Quando chovia e nós, moleques, tínhamos que ficar dentro de casa, começávamos a inventar brincadeiras. Não havia televisão, computador, playstation, essa parafernália eletrônica de agora que encanta a molecada.

Para acalmar a filharada, minha mãe ia pro fogão de lenha e inventava aquelas doces alquimias que ficaram, definitivamente para mim, como o gosto daquele tempo em que éramos felizes e não sabíamos.

Recordo com água na boca particularmente de três guloseimas que encantaram aqueles meus dias. Bolão de fubá, com erva-doce e pedacinhos de queijo mineiro. Ele ficava com uma casca durinha, que eu simplesmente adorava. Vira-cambota... ah, o saudoso vira-cambota que minha mãe preparava. Adorava ver o bolinho, ao ter a metade inferior fritada, virar-se automaticamente, como que por encanto, para dourar o outro lado. E tinha o inesquecível bolinho de chuva. O campeão dos campeões.

Com 2 ovos, 1 colher de sopa de margarina, 1 xícara de chá de açúcar, 1 pitada de sal, 1 xícara de leite, 1 colher de sopa rasa de fermento em pó e umas 4 xícaras de chá de farinha de trigo, minha mãe sapecava uma panelada de bolinho de chuva. Ela misturava a margarina com o açúcar e os ovos, adicionava uma pitada de sal, o leite, o fermento e por último ia adicionando a farinha de trigo até chegar ao ponto. Depois de frito, ela passava os bolinhos no açúcar e na canela em pó. Coava um bule de café e montava a mesa com um carinho e uma ternura jamais vistos. E a gente se fartava sob o olhar encantador de meu finado pai, os mais belos olhos azuis do mundo.

Recentemente comi bolinho de chuva. Mas percebi que ele não tinha aquele sabor delicioso dos meus tempos de criança. Fiquei intrigado, pois eram os mesmos ingredientes utilizados pela minha mãe. Mas estava enganado. Faltaram algumas pitadas de amor e carinho. E um ingrediente que está cada vez mais se escasseando, chamado família.