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domingo, 25 de maio de 2014

INSEGURANÇA NA ESCOLA;
(PROFESSORA É ASSASSINADA)

Silvio Prado, professor

O assassinato de uma professora, no estacionamento de uma creche municipal, ontem (23/05) em Taubaté, não deve ser explicado apenas pela brutal passionalidade do criminoso. Seis tiros impiedosos arrancaram a vida de uma educadora e revelaram mais uma vez o que a cidade inteira já sabe: a falta de estrutura que impera nas unidades educacionais do município e o quanto de insegurança atormenta diariamente a vida de professores, funcionários e alunos.

Portanto, a tragédia que se deu ontem na creche da Vila Canuto Borges não pode ser explicada apenas como o final trágico de uma relação que não deu certo, ou pelo desequilíbrio emocional de um homem frustrado e violento, ou pela “falta de Deus no coração dos homens”. O assassinato da professora precisa ser entendido, também, sob o ponto de vista da precarização das condições de trabalho do profissional da educação e do sucateamento do ensino público que impera em Taubaté.

Aqui, como em todo o país, escolas vivem do improviso e funcionam de qualquer maneira. São espaços vulneráveis e inseguros, cercados muitas vezes por uma realidade violenta, que ultrapassa com facilidade seus muros e portões e criam tragédias rotineiras. Onde a estrutura é falha e o Estado finge que está presente, tudo pode acontecer. E acontece.

Como se fosse um aviso, ainda neste mês de maio, numa escola da Esplanada Santa Teresinha, professores tiveram seus carros apedrejados por alunos. Bem antes, em 26 de setembro de 2013, o jornal Gazeta estampou: Menino de 11 anos é detido com droga e munição na escola. Depois, em outubro, o mesmo jornal: Com medo, aluna de 10 anos vai até a escola com faca. Em fevereiro do presente ano, ainda o Gazeta, como se estivesse fazendo uma síntese da educação pública municipal, estampou: Ensino integral de Ortiz sofre com falta de estrutura.

Mesmo assim, constatada a falta de estrutura (que vai muito além da escola de tempo integral), o prefeito entendeu que deveria enfrentar o problema, por exemplo, terceirizando creches. Porém, antes, bem antes, desde o começo de sua gestão, ele entendeu também que deveria silenciar algumas vozes que, dentro do magistério municipal, possuem autoridade moral e política para detectar problemas, denunciá-los e exigir mudanças, conforme o ponto de vista dos educadores. Por isso, o prefeito, preocupado em ocultar a falta de estrutura das escolas municipais pediu a cabeça de cinco lideranças do professorado e as enquadrou num processo administrativo vergonhoso.

Mas a vida é mesmo implacável: o silêncio que o prefeito exigia sobre a falta de estrutura das escolas e das péssimas condições de trabalho dos professores foi ontem pela manhã implodido pelos seis tiros que arrancaram a vida de uma educadora. Agora, mais do que nunca, a vulnerabilidade da rede escolar municipal está exposta e deve merecer a atenção das pessoas preocupadas com a segurança e as condições de trabalho do professor.

Quem tiver paciência e condição de pesquisar manchetes de nossa imprensa, ou de buscar informações diretas com professores e funcionários de creches e escolas municipais (e também estaduais), tomará conhecimento de uma realidade onde atos de violência são constantes.

Portanto, as autoridades sabem dos riscos a que estão sujeitos aqueles que trabalham em unidades escolares públicas, mas nada fazem além de plantar sobre seus muros horríveis cercas com material cortante ou encher de câmeras de vigilância cada ponto do prédio. Dar a escola aspectos de presídio não gera segurança e nem resolve problemas básicos da educação, todos sabem, inclusive os responsáveis pelo ensino público.

No país em que o Estado ao invés de transformar a realidade se esmera em fazer ficção, ou forjar dados mentirosos para provar que está fazendo o que não está fazendo, a educação sofre prejuízos diários e seus profissionais pagam um preço muito alto.

Uma coisa precisa ficar definitivamente entendida: a escola, pelo seu caráter e finalidade, não pode ser palco da barbárie, mas instrumento eficaz na luta contra toda forma de treva e escuridão. E todo professor, seja ele qual for, não pode trabalhar e nem produzir educação em locais vulneráveis e fragilizados pela irresponsabilidade de políticas que sucateiam o ensino, semeiam riscos e colecionam fatos trágicos. O crime ocorrido ontem, na creche do Canuto Borges não foi uma fatalidade, mas resultado do abandono e descaso com o professor e a educação pública.