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domingo, 11 de maio de 2014

Uma fábula fabulosa:
"O ARMAZÉM DO BRASILINO"

Celso Brum, professor e sociólogo

Qualquer semelhança com pessoas e fatos conhecidos não é mera coincidência: é proposital mesmo, é querer querendo).

O emblemático armazém do Brasilino ia muito mal, estava à beira da falência. Apesar de que, seu gerente, um ariano, era um sujeito empertigado, solene, diplomado (uma penca de diplomas), sempre muito elegante, deliciosamente perfumado, um verdadeiro dandy, um autêntico peralvilho enfeitado e que, ainda por cima, falava francês fazendo biquinho. O detalhe (incômodo detalhe) é que administrativamente ele era uma besta e estava levando o armazém do Brasilino para o buraco.

Brasilino nem estava tão velho assim, mas julgava-se merecedor de ficar permanentemente deitado em rede esplêndida. Daí, entregava o controle do armazém aos seus três filhos: Mané Sensato, Mané Bobão e Mané Cretino.

Mané Sensato é, conforme indica seu nome,um exemplo de sensatez, de prudência e de fina capacidade analítica e, por isso mesmo, um extraordinário perscrutador do futuro. E é, sobretudo, um poeta, sensível, amante da natureza, amável, bondoso e justo com os seres humanos e protetor de animais. Com tantas virtudes, Mané Sensato certamente deveria ser mais ativo e partir para a luta, mas, nesse quesito, Mané Sensato fica devendo: não é fácil botar o Mané Sensato em ação.

Mané Cretino é o completo oposto do seu irmão Mané Sensato: preconceituoso, mentiroso, caluniador, cínico, patife, despótico e velhaco, capaz das maiores arbitrariedades. Bajulador dos ricos e sem contemplação com os pobres, os fracos e os oprimidos. Seu lema: o fim (seus próprios interesses ) justificam os meios.

Mané Bobão até não é má pessoa: crédulo, supersticioso, pouco inteligente, incapaz de perpetrar maldades, mas, infelizmente, algumas vezes não intervindo para evitá-las. Preferia não ter que se ocupar com os acontecimentos, mas ultimamente anda dando muita atenção às ideias do jornaleco local. Enfim, Mané Bobão é bem capaz de tomar atitudes corretas (especialmente quando influenciado por seu irmão Mané Sensato). Mas, quando resolve agir por conta própria, é só bobeira.

E, falando do jornal local, é preciso dizer que é um jornal de m..., uma porcaria de jornal, pomposo e medíocre. Não pratica o jornalismo verdadeiro, em que os fatos são as notícias. Suas bases são fundamentadas, não nos fatos e sim nas suposições. Para atingir suas vítimas, as palavras usadas continuamente são suposto, supostamente, suposição, para não sofrer processos de injúria e calúnia, enfim, uma tremenda canalhice. O jornaleco de m... é publicado com vários nomes, mas é tudo a mesma m... .

Pois é, mas como dizia linhas acima, o gerente diplomado e perfumado estava levando o armazém do Brasilino para o buraco. Certo dia, Mané Sensato apareceu com um candidato à gerência. Reunidos os irmãos e com os votos de Mané Sensato e Mané Bobão contra o voto de Mané Cretino, um novo gerente foi contratado. Não tinha diploma, tinha experiência. Era pobre e falava uma língua saborosa, um brasileirês muito parecido com a língua portuguesa. Era um mestiço como a maioria de todos nós, simpático e carismático. Chamava-se Petito Potente.

As estratégias pouco ortodoxas de Petito Potente, em pouco tempo, deram um extraordinário resultado. Ele conseguiu pagar as dívidas deixadas pelo diplomado, resgatar a confiança do público e produzir inesperados e poderosos lucros.

Mané Cretino acreditava que Petito Potente iria levar ao caos o armazém do Brasilino e, se isto acontecesse, ele traria de volta o diplomado perfumado. O cretino Cretino ficou enfurecido, não pelos eventuais, inevitáveis e humanos erros de Petito Potente, mas pelo seu sucesso.

E foi tão expressivo o sucesso de Petito Potente na gerência do armazém do Brasilino, que filiais foram criadas e os lucros não paravam de aumentar. Assim, foi possível beneficiar amplamente os empregados do armazém e até seus parentes distantes, com as benesses autorizadas por Brasilino. Até mesmo o cretino Cretino foi beneficiado, mas sua cretinice o impedia e impede de reconhecer os méritos de Petito Potente.

O fato é que o tempo passa e as pessoas vão esquecendo das coisas e os jovens – que não viram como tudo aconteceu- pensam que tudo foi sempre assim e começam a querer muito mais, além da conta e além das efetivas possibilidades. Até o Mané Bobão – que antes andava numa bicicletinha velha e hoje já comprou até carro zero – começa a contestar Petito Potente, influenciado pelo jornaleco de m..., com suas suposições mentirosas.

Enquanto isso, Mané Sensato continua lendo e escrevendo poesias, em ambiente de ar condicionado, com todo o conforto a que tem direito. Antigamente, usava um botinão de amassar barro e agora se delicia com sapatos de pelica, que ninguém é de ferro.

Enquanto isso, Mané Cretino continua fazendo de tudo (tudo, tudo mesmo, golpes baixos, calúnias, injúrias e, principalmente, suposições ) para derrubar Petito Potente.

A permanência de Petito Potente na gerência do armazém do Brasilino depende de Mané Bobão, que sofre a influência do jornaleco de m... e das cretinices do cretino Cretino.

É bem verdade que Petito Potente descuidou-se de conscientizar o Mané Bobão, fazendo-o entender que o sucesso alcançado não foi obra do acaso e que o jornaleco de m... e o Mané Cretino são inimigos de qualquer processo verdadeiramente civilizatório.

O armazém do Brasilino tanto poderá consolidar o progresso, como poderá caminhar para a crise e a involução. Qual será o destino do armazém do Brasilino?  Mané Sensato, Mané Cretino e Mané Bobão é que irão responder. Aguardemos os próximos capítulos.

MORAL DA HISTÓRIA - Costumeiramente as fábulas têm uma moral da história. A minha fábula tem quatro:
1º - Petito Potente não é perfeito, mas sabe fazer bem feito.
2º- Se o Bobão não tomar siso, vai ficar no prejuízo.
3º- O Sensato sem fazer nada deixa exposta a retaguarda.
4º- As cretinices do Cretino vão ferrar o Brasilino.

Notas do autor:
Existe um ótimo livro do Millôr Fernandes com o título “Fábulas Fabulosas”. Foi dele que emprestei a“fabula fabulosa” que consta no título;

Peço desculpas aos meus caros, raros, fiéis e inteligentes leitores pelo tom irratadiço da presente crônica. É que estou cansado da manézada toda.