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quarta-feira, 30 de julho de 2014

PICARETAS TRANSFORMAM BIBLIOTECA
EM OFICINA E ANUNCIAM VOLTA DA ROTA

Silvio Prado, professor

Placas de alumínio espalhadas pelo chão. Latas de tinta, vazias, amontoadas junto ao muro. Um feixe de canos de metal escorado no mesmo muro, de mais de dois metros de altura. Na frente do prédio, uma bancada onde dois trabalhadores cortam e soldam placas de metal. Quase junto ao portão, uma espécie de armário, improvisado e rustico, onde aparecem amontoados restos de vários tipos de materiais usados para a sinalização do trânsito. No fundo, no lado esquerdo do prédio, um caminhão do Departamento de Trânsito confirmando que aquele local, onde, desde a década de noventa, funcionava uma das nossas bibliotecas públicas já não é mais uma biblioteca, mas, agora, simples oficina que produz e abastece a sinalização do trânsito taubateano com mil e um apetrechos.

Conversando com um dos trabalhadores por lá encontrados, ele informa que o local deixou de ser uma biblioteca e se transformou numa oficina há quase dois anos. Na parede frontal do prédio, está uma placa azul com suas letras dizendo que “O povo de Taubaté construiu”. Uma moradora das imediações diz que, no passado, quando sua filha ainda cursava o ensino fundamental na escola Juvenal da Costa e Silva por várias vezes ela foi até a biblioteca ajudar a menina nas pesquisas e trabalhos escolares.

Agora, portanto, no local, nem livros, jornais, revistas, ou crianças e adolescentes tendo acesso ao mundo da cultura e saber. Como toda oficina e lugar de produção, o barulho de um esmeril e de outras máquinas leves, prevalece. O clarão da solda também causa incômodos. Como todo prédio construído pela prefeitura de Taubaté, o que era biblioteca e virou oficina segue o padrão ditado pelo ex-prefeito Bernardo Ortiz. Totalmente feito de blocos de cimento, sua arquitetura é visualmente horrível e parece inspirada numa caixa de sapatos. Feito para atender necessidade de gente pobre e sem recursos, ele é só mais um sinal do descaso com que os interesses populares sempre foram tratados em Taubaté.

No entanto, era uma biblioteca, abrigava nele talvez mais de mil livros, centenas de revistas, mapas e outros recursos que certamente acrescentaram algo de bom na vida dos que passaram por lá. Se houvesse interesse do poder público, poderia ser mais que uma biblioteca. Talvez polo aglutinador de pessoas interessadas por literatura e outras artes. Local para conversas aprofundadas sobre temas diversos. Espaço para semear alguma luz nessa terra obscura onde todo mundo, quase individualmente, tenta sobreviver.

Porém, o grito dos automóveis e o caos do trânsito sensibilizaram mais o prefeito do que a necessidade de livros e conhecimento. Por isso, uma biblioteca pública, localizada na esquina da avenida Marrocos com a rua professor Roque de Castro Reis, bairro da Independência, acabou virando uma das oficinas do Departamento de Trânsito da prefeitura. Enquanto essa mudança absurda permanece anônima, picaretíssimas figuras anunciam que a ROTA está chegando a Taubaté, mais uma vez, para fazer o que ela nunca conseguiu fazer desde que foi criada pela ditadura militar: dar um jeito na crescente violência que intranquiliza a todos.