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segunda-feira, 14 de julho de 2014

PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO!

Silvio Prado, professor

No ano passado, vi pela última vez Plínio de Arruda Sampaio. De Taubaté, eu e mais alguns companheiros do PSOL lotamos uma van e fomos a São Paulo participar de um debate sobre a luta dos trabalhadores e o Primeiro de Maio.

Organizado pela juventude do partido, o ato se deu num local fechado onde, por questão de segurança, deveria entrar não mais que duzentas pessoas. Porém, estavam por lá quase trezentas.

Nenhum daqueles que usou da palavra nesse Primeiro de Maio, entre eles Vladimir Safatle e Luciana Genro, conseguiu deixar num segundo plano o velho e respeitável Plínio de Arruda Sampaio, infelizmente falecido ontem (08/07).

A fala precisa de Safatle sobre a conjuntura nacional e o quase longo discurso de Luciana Genro, já antecipando as tarefas do partido para a disputa presidencial desse ano, por mais brilhantes que tenham sido não ofuscaram a fala de Plínio. Seus mais de oitenta anos e os incômodos da doença não afetaram a lucidez e nem arranharam seu eterno bom humor.

Naquela tarde, como em tantas outras vezes, ele foi claro, objetivo e conseguiu despertar ou fortalecer nos presentes a importância do PSOL como organização partidária, além de chamar a atenção sobre a dureza da luta política que o partido travaria nos próximos meses.

Participante ativo da história do país nos últimos cinqüenta anos, Plínio de Arruda Sampaio tinha uma bagagem extremamente respeitada pelo conjunto do partido e por quase todo o movimento social. Naquela tarde, pelo menos 70% dos presentes no debate eram pessoas com menos de 30 anos, com olhos e ouvidos fixos nessa especialíssima figura.

Três anos antes, no Rio de Janeiro, na convenção que definiu Plínio candidato a presidente da república, o octogenário se viu cercado pela mesma juventude, agora vinda do país inteiro e tremendamente orgulhosa de tê-lo a frente da campanha.

Todos sabiam que, além da estrutura precária do PSOL, da falta de recursos para a campanha, do tempo escasso na tevê, ainda havia um candidato a presidente cuja saúde não era das melhores e que em determinados momentos certamente lhe faltaria disposição física para assumir integralmente as árduas batalhas que  começavam.

Mas nada disso parecia incomodar os presentes, principalmente a militância jovem. A simples presença daquela personalidade histórica já servia de estímulo e referência para tocar a campanha.

Depois da convenção, Plínio por longo tempo conversou informalmente com um número sem fim de participantes e posou para centenas de pequenas máquinas digitais empunhadas por gente orgulhosa de tê-lo como candidato.

Terminado o evento oficial, do lado de fora do prédio e no meio das muitas barracas que militantes montaram para a venda de jornais e material partidário, o então candidato a presidente do Psol parece que teve um breve momento  de sossego. Não de muito longe, fiquei a observá-lo e imaginando o que um homem com tamanha carga histórica, mas já debilitado fisicamente, estaria pensando sobre a experiência como candidato presidencial.

Em pé, os braços cruzados, olhar sereno, silencioso, lá estava o velho Plínio, promotor público aposentado, ex-deputado federal, cassado pela ditadura e exilado no Chile, especialista em reforma agrária e por dez anos diretor da FAO (órgão da ONU que cuida de questão da agricultura e reforma agrária), fundador do PT e personagem de tantas lutas que marcaram a história brasileira nas últimas cinco décadas.

Não posso deixar de dizer aqui que, naquele dia, eu estava tristemente amargo em razão das balas de borracha que a polícia do ex-governador José Serra conseguiu acertar em minha perna direita numa manifestação, dias antes, nas imediações do  Palácio dos Bandeirantes. Em poucos dias, a pequena ferida formada pelos tiros acabou entrando num processo de infecção que me deu uma senhora dor de cabeça.

Parecia uma bobagem passageira, mas eu estava preocupado pois toda medicação usada não dava conta do problema que parecia se agravar. E uma dor localizada, mas persistente, não me deixava ver graça em nada e nem olhar de forma positiva a determinação daquela figura exemplar em comandar um partido ainda mal estruturado numa luta desigual contra poderosíssimas máquinas partidárias.

Na verdade, eu  não tinha o mesmo animo do restante da militância, mas Plínio, ainda por alguns momentos continuou ali, silencioso, observando tudo e todos, certamente com um peso tremendo sobre os ombros mas não se recusando a tomar a frente dos acontecimentos.

A minha amargura diante de um homem apenas aparentemente solitário, naquele momento me fez pensar sobre as muitas fragilidades de pessoas que sonham em mudar o mundo e dar um outro curso a história. Eu estava de fato triste por um motivo bem particular, mas Plínio aparentava a serenidade dos grandes lutadores que sabem que não podem recuar um passo, pois esperanças e sonhos de tanta gente dependem de sua determinação e até sofrimento.

Por isso que, ontem, quando fiquei sabendo de sua partida, é que junto com um punhado de outros pensamentos e lembranças veio também à memória um magnífico escrito de Bertold Brecht. Na minha opinião, o texto de Brecht, que transcrevo abaixo, serve com perfeição para homenagear personalidades como Plínio de Arruda Sampaio:

Há os que lutam um dia, e por isso são muito bons.
Há aqueles que lutam muitos dias, e por isso são muito bons.
Há aqueles que lutam anos, e são melhores ainda.

Porém, há aqueles que lutam toda a vida.  Esses são os imprescindíveis.