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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A COSTELA DO PT

Celso Brum, sociólogo

(Publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Epígrafe: “ Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono, e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez a mulher” (Gênesis 2, 21)

A candidatura de Marina Silva – diante da morte de Eduardo Campos- era natural. Tornou-se inevitável com a divulgação da pesquisa do Datafolha, que lhe concede real perspectiva de poder.

Mas as coisas não são tão simples. Na quarta-feira, no anúncio formal de sua candidatura, no gesto tradicional, mãos dadas e erguidas, não havia o sorriso aberto dos participantes: todos estavam sérios, Roberto Amaral, presidente do PSB tinha uma expressão constrangida e Marina Silva mal conseguiu um esgar. Sabe-se que Marina, do alto dos seus 21% da pesquisa, impôs condições e exigências, não deixou barato. As condições que vieram a público: ela indicou o coordenador e o tesoureiro da campanha; não aceitará doações de empresas que fabricam cigarros, bebidas; etc,  no que, aliás, está certa; não participará da eleição de filiados do PSB que estejam apoiando candidatos do PSDB e do PT, o que indica que ela vai para o confronto direto com essas forças. Isso é o que se sabe, deve haver muito mais que o PSB teve que engolir e engolir a seco.

É preciso enxergar os sinais. Num primeiro momento, no auge da comoção, logo após a notícia da morte de Eduardo Campos, seu irmão e sua esposa falaram que Marina Silva deveria ser a candidata a presidente. Dias depois, numa carta aberta de Renata Campos, esposa de Eduardo, ela se colocava à disposição do PSB, em Pernambuco, e não citava Marina Silva. Há quem interprete que ela talvez quisesse dizer, ao PSB, que poderia ser a candidata no lugar de Eduardo Campos. Mas aí já era tarde, pois a pesquisa Datafolha havia sido divulgada.

O PSB sabe que Marina apenas usa o partido, sabe que ela não comunga com o partido e que ela, com a legalização da Rede da Sustentabilidade, sairá do partido. E, sabe o que todo mundo sabe: Marina não compartilha da vida partidária existente. Seu partido nem se chama partido, é Rede. E, para muita gente, essa concepção fundamentalista e radical de Marina é que é o ideal, aconteça o que acontecer.

Mas, como disse linhas acima, é preciso enxergar os sinais. A “grande imprensa” deu destaque (e quase me surpreendeu) que o Datafolha, em sua pesquisa, anotou o aumento de seis pontos na aprovação do governo e a diminuição de um ponto na rejeição de Dilma Rousseff. A “grande imprensa” destacou também que foram criados 1.490.000 novos empregos em 2013, com carteira assinada. É possível interpretar que a sintomática turma da direita, que não tem o hábito de queimar dinheiro, tenha autorizado seus costumeiros  corifeus da “grande imprensa” a “amaciar” com a Dilma e o governo: pode ser que seja o “efeito Marina”.

Na parte da tarde, vi o programa eleitoral e fiquei impressionado com o rol de obras do governo Dilma. Eu sabia que a “grande imprensa” não noticiava o que acontecia de bom no Brasil, por conta das obras do governo. O que eu não sabia era o extraordinário volume de obras do governo Dilma, que a “grande imprensa” deixou de divulgar, porque não queria “favorecer” o governo. Que tipo de jornalismo é esse que decide não noticiar fatos tão relevantes para a vida do país?

O PSB tem apenas um minuto e meio de programa, o que, por paradoxal que pareça, acaba sendo uma vantagem para Marina Silva. Ela poderá continuar falando generalidades e platitudes e argumentando que não pode aprofundar-se pela falta de tempo. É certo, portanto, que o tempo exíguo não a prejudicará e ela continuará tendo a perspectiva de poder.

Sinceramente, eu continuo acreditando que Dilma Rousseff vai ganhar, embora num provável 2º turno, seja contra Aécio ou contra Marina. Mas, é preciso reconhecer que Marina tem, hoje, uma perspectiva de poder.

No caso de alcançar o poder, ela iria governar com quem? Ela iria governar com o PSDB ou com o PT, ou seja, com as forças da direita ou da esquerda?  Ou iria para o confronto com o Congresso, coisa que foi tentada por Jânio Quadros e Fernando Collor, com as consequências sabidas?

Até anteontem , a “grande imprensa” anabolizava a candidatura de Eduardo Campos/Marina Silva, porque acreditava que essa candidatura apenas traria votos para levar o Aécioporto para o 2º turno. Como vai reagir a “grande imprensa” diante da perspectiva de poder de Marina Silva?

Por outro lado, como deveria reagir o PT, diante dessa perspectiva: permitir que Marina fosse cooptada pela direita ou que Marina caminhasse para o confronto com o Congresso, ou seja, para o caos institucional, para a crise e, consequentemente, para ensejar o golpe, como reza a teoria da conspiração.

Afinal de contas, as grandes conquistas para o Brasil, conseguidas pelo PT, nesses últimos 12 anos, não podem e não devem correr riscos, os riscos a que estariam sujeitas essas grandes conquistas, caso a direita, de uma forma ou de outra, alcançasse o poder.

Assim, não restaria ao PT outra atitude senão a de proteger Marina, superando-se possíveis e justas mágoas. Marina é criatura da Igreja Católica e do PT. Deixou o catolicismo e tornou-se evangélica. Deixou o PT e tornou-se fundamentalista política, seja lá o que isto signifique. Mas ela é, sobretudo, costela do PT. Não ignorando os seus méritos, sem o PT ela não seria o que é. E caberá ao PT, se for o caso, protegê-la, para o bem do Brasil.

Mas como diria o inefável Fernando Carlos Lacerda Cardoso, esqueçam o que eu escrevi acima, sobre a possibilidade de uma vitória de Marina Silva – tremenda esfinge- que não vai acontecer. Dilma Rousseff, em quem vou votar, ganhará a eleição. E o Brasil vai continuar a crescer. Quem viver, verá!.