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terça-feira, 12 de agosto de 2014

A DEMONIZAÇÃO DA CLASSE POLÍTICA

CELSO BRUM, SOCIÓLOGO

A campanha eleitoral de 2014 ficou mais curta, por causa da Copa do Mundo e ainda não se sente o clima eleitoral, como em outras eleições. O que se diz, aliás, o que dizem setores emblemáticos da “grande imprensa” é que o povo está desinteressado, decepcionado, desencantado- enfim, tudo isso e mais um pouco - com a política e os políticos. Isso é afirmado e devidamente anabolizado como verdade absoluta, sem nuancee e sem as devidas interpretações. O povo não gosta de política e dos políticos e pronto. Eu já vi esse filme antes e sei como acaba, melhor dizendo, sei com que golpe acaba.

“Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”, como disse o também emblemático Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich na Alemanha Nazista, a Alemanha de Adolf Hitler. A “grande imprensa” conhece bem esta máxima e não poucas vezes a tem usado. Como nos casos da insatisfação popular.

Porque é verdade que insatisfação existe. Como há sempre o que melhorar e desenvolver, há que existir os insatisfeitos. Sem eles, não haveria mudanças e, consequentemente, não haveria progresso. Mas não é disso que a nossa “grande imprensa” trata, quase sempre. O que a “grande imprensa” pretende é conduzir a massa ignara ao redil político – ideológico da direita, ou seja, não para uma mudança progressista, ao contrário, para o retrocesso conservadorista das forças mais reacionárias do país. É isso o que se vê e só não vê quem não quer.

Em junho de 2013 aconteceram aquelas manifestações populares, iniciadas em defesa do passe livre e, depois, estendidas para protestos generalizados. Tudo começou com uma convocação nas redes sociais da internet e, no começo, foi uma coisa espontânea. Na época, interpretei  o evento como um surto. Aí entrou a “grande imprensa” que percebeu a oportunidade de ampliar o surto e transformá-lo em um movimento antigovernista, no que a “grande imprensa” acertou e pode alcançar o seu intento, segundo o que  poderia prever Joseph Goebbels.

Das manifestações de junho de 2013 resultaram os black blocs e o “mudancismo”. De lá para cá, o que mais a “grande imprensa” fala é que a opinião pública reclama por mudanças. Para a “grande imprensa”, no caso o que interessa é a mudança de governo, ou seja, o retrocesso ao tucanismo –trensalista—privatarista –aécioportista, sem dó nem piedade.

A campanha “mudancista” da imprensa se apresenta como verdade absoluta e absolutamente generalista. Mudar para o quê? O que há – do interesse imediato da maioria da população – que precisa ser mudado? O índice de desemprego no Brasil é um dos mais baixos do mundo; a inflação está controlada (embora a “grande imprensa” minta, dizendo o contrário); embora haja o que melhorar, os índices de desenvolvimento social e de recursos destinados à saúde e educação são sempre crescentes; a economia do Brasil está estabilizada, o que leva o país a ser respeitado internacionalmente, ocupando o 6º  lugar entre todas as nações e etc, etc e tal.

É só observar, no resto do mundo, e ver que as manifestações populares ocorrem em função de temas como desemprego, instabilidade econômica e social, desabastecimento, etc, coisas que  NÃO ESTÃO ACONTECENDO NO BRASIL REAL, só no Brasil da “grande imprensa”.

E a desilusão da opinião pública em relação à política e aos políticos de fato existe, e é comum em quase todos os países. Mas, no caso do Brasil, a “grande imprensa” trata de ampliar ao máximo este sentimento, porque entende que o ataque aos políticos, de uma forma geral, desgasta mais o governo, no que a “grande imprensa” tem toda a razão (e Goebbels certamente aplaudiria). É claro que a “grande imprensa” bate muito mais leve nos aecioportos do que em qualquer petropasadena que esteja ao seu alcance.

É certo que a demonização da política e dos políticos não interessa à democracia. Em qualquer golpe de estado, os políticos são os primeiros a sofrer perseguição, muito especialmente os mais engajados. E a atividade política é extinta ou reduzida e controlada pelos golpistas. Como qualquer golpe no Brasil sempre foi e sempre seria ou (que Deus nos livre dessa barbaridade) sempre será de direita, a demonização da política e dos políticos SÓ INTERESSA À DIREITA.

E cabe-nos esclarecer que nunca houve a menor possibilidade de um golpe de esquerda, no Brasil, como os brucutus de 1964 argumentaram. O direitismo no Brasil é mais do que um direcionamento político-ideológico:é um fenômeno cultural. Assim como já disse neste espaço de reflexões heterodoxas, mais de 90% das instituições brasileiras são controladas por direitistas, alguns até razoavelmente civilizados.

A chegada ao poder do PT (que é nossa esquerda possível) é algo espantoso e inesperado. Mais do isso: a obra realizada pelos governos do PT, operando dentro do capitalismo, é algo  absolutamente extraordinário e seus resultados, igualmente extraordinários, conseguiram fazer com que nosso país não sacumbisse diante da catastrófica crise de 2008, que abateu ( e abate) a maioria dos países.

E é por causa do sucesso do PT que a “grande imprensa” está contra o atual governo e não pelos seus defeitos. O que a direita não perdoa é que a competência do PT deixe tão nítida a sua incompetência. Daí o ódio, ódio de apartheid, que a direita tem pela nossa esquerda possível, no poder.

Não será desta vez, no entanto que, nas próximas eleições, a direita chegará à Presidência da República. Vai perder, e vai perder feio. Restará aos direitistas conspirar. A conspiração é o golpe e o que mais sabem fazer. E que a esquerda – a vanguarda da civilização – esteja alerta.