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sábado, 30 de agosto de 2014

A TENTAÇÃO DE PASÁRGADA

Celso Brum, sociólogo*

A primeira vez que quis ir para a Pasárgada foi em 1964. Em 1963, tinha começado meu 1º curso universitário e me havia entrosado com o efervescente movimento político. Admirava João Goulart, estava a favor de suas reformas de base e confiava que Juscelino Kubitschek iria ser eleito em 1965 e iniciar uma nova fase desenvolvimentista do Brasil. Mas, aí veio o golpe de 1º de abril (intitulado 31 de março). No dia 3 de abril, na 1ª página do Diário da Noite (ou da Última Hora (não me lembro bem) estava a foto do líder comunista Gregório Bezerra, com seus fartos cabelos brancos, de cuecas, com as mãos amarradas e com uma corda no pescoço, numa pequena carreta: assim ele teria sido exibido nas ruas de Recife. Não me foi difícil imaginar o que viria depois.

E pensei:  Vou largar tudo e vou-me embora pra Pasárgada.

Pasárgada é aquele lugar maravilhoso, em que a juventude é eterna, o amor é perfeito, tudo é bom, todos são bons. Alguns dão à Pasárgada imemorial o nome de Shangri-La e, de certa forma, é a Castália, de Hermann Hesse. Em Pasárgada, todo o bem se realiza sem ser preciso esperar por ele. É um lugar de paz, alegria e completa sabedoria.

Mas, como dizia, em abril de 1964, quis ir pra Pasárgada. Mas, por teimosia mais do que por esperança, fui ficando. Aí, o grande Ulisses Guimarães passou a liderar um frágil movimento, o Movimento Democrático Brasileiro- MDB, que fez da sua fragilidade a sua força. Fiz parte desse Movimento, com minha inscrição (nº 132) nos primórdios do MDB. A ditadura era poderosa. Enfrentá-la era muito arriscado. O grande Ulysses Guimarães – como o Ulisses da Odisséia - pretendeu encarar esse poder com sua anticandidatura a presidente, depois vieram as Diretas-já, depois a eleição(indireta) de Tancredo Neves. E eu ia renovando minha esperança e postergando minha ida pra Pasárgada.

Em 1989, depois de quase 30 anos sem eleições diretas para presidente da República, vi o grande Ulysses Guimarães ser fragorosamente derrotado por Fernando Collor, um arrivista político, cuja estratégia política era dizer generalidades e platitudes, ao gosto da patuleia eleitoral. Era o “caçador de marajás”, lembram- se?  E foi com generalidades e platitudes que ele conseguiu chegar ao poder. Não com o meu voto. Eu botei fé no velhinho, como pedia a música da sua campanha: “Bote fé no velhinho/ o velhinho é demais/ bote fé no velhinho/ ele sabe o que faz”. Sabia, desde o primeiro momento, em que crise ia dar o governo do adventício Fernando Collor. E, antes que seu governo simplesmente apodrecesse, a inflação atingiria níveis estratosféricos e a economia se desorganizasse, para não ser cassado, ele renunciou.

Em 1989, com a derrota de Ulysses, havia pensado: vou largar tudo e vou-me embora para Pasárgada.

Mas, sempre mais por teimosia do que por esperança, pude assistir o infeliz governo Collor e, depois, surpreender-me com o presidente Itamar Franco que, para espanto dos mais céticos brasileiros, conseguiu a proeza de reequilibrar a economia, com o Plano Real, cujos méritos costumam ser usupados (com a cumplicidade da “grande imprensa”) por Fernando Carlos Lacera Cardoso. A “grande imprensa” não gostava de Itamar Franco, mas, ele fez bem ao Brasil.

O governo de Fernando Carlos Lacerda Cardoso conspirou contra o Plano Real, mas, teve o mérito de criar a Lei de Responsabilidade Fiscal e salvar o país de uma quebradeira bancária, com o Proer. No mais, foi calamitoso e tão calamitoso foi que, apesar da força da direita e da “grande imprensa” (ou seja, do reacionarismo com viés fascista) o operário e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito.

E aí valeu a pena não ter ido pra Pasárgada. Foi como um milagre, a realização das melhores esperanças. Já falei tantas vezes, neste espaço de reflexões heterodoxas, de quanto foram extraordinários os governos Lula e Dilma, mas é justo e oportuno relembrar que tirar da extrema pobreza mais de 38 milhões de pessoas, levar à classe média mais de 40 milhões, em paz e dentro da lei, é algo único, nessas proporções, na história mundial, em todos os tempos; e manter o desemprego em níveis de quase pleno emprego e manter o controle da inflação, durante a maior crise econômica da história; e levar o Brasil ao patamar de 6ª economia mundial respeitado no mundo todo, tudo isso (E MUITO MAIS) me levou até a esquecer Pasárgada.

Aí, eu sonhei que (apesar do feroz combate da direita e dos seus corifeus postados na “grande imprensa”) com a continuidade (dentro da Lei, é claro, observado a liturgia dos processos eleitorais) do PT, nossa esquerda possível, no governo, quem sabe seria possível fazer chegar ao poder real do Brasil (as instituições ocupadas hoje, em mais de 90% por direitistas) os egressos das classes populares, com consciência histórica, política e social, portanto, esquerdistas militantes e juramentados. Se isso acontecesse, o Brasil seria muito melhor, porque muito mais justo. Mas, para isso acontecer, leva tempo e a continuidade seria essencial.

Nesses últimos dias, de repente, pensei na Pasárgada. E lá dentro de mim, não consigo conter as palavras: Vou largar tudo e vou pra Pasárgada.

É que a direita insidiosa está conseguindo ameaçar de voltar e eu já vejo quase extintas minhas reservas de esperança.

A possibilidade de quebrar a necessária continuidade deste governo me desanima. Como em 1964, pertinho da eleição de Juscelino e da modernização do Estado Brasileiro, agora em 2014, dentro (DENTRO, DENTRO, DENTRO) de um processo de engrandecimento do Brasil e da redenção do povo brasileiro, sou obrigado a ouvir bobagens como autonomia do Banco Central e Estado mínimo, além de outras generalidades e platitudes.

Que autonomia do Banco Central?  Ou o Banco Central está integrado aos objetivos do Governo ou está manietado pelo Mercado e foi o Mercado que produziu a crise da qual o mundo não consegue sair. Esta bobagem vem sendo repetida por Marina Silva.

Que estado mínimo é esse? O Estado mínimo é o Estado da governabilidade, não menos que isso. Qualquer coisa fora disso é demagogia, é bobagem. Porque é preciso governar com o Congresso e não contra o Congresso. É essa bobagem de Estado Mínimo, vem sendo repetida por Marina Silva.

Autonomia do Banco Central e Estado mínimo são bandeiras da direita. Dessa direita que tanto mal fez e faz ao Brasil e que pretende controlar quem se deixa controlar ou conduzir os fatos à uma crise e a um golpe.

Ah, vou largar tudo e vou-me embora para Pasárgada.

Lá vou encontrar com meus heróis de sempre: o Papa João XXIII, D. Helder Câmara, o padre Teilhard de Chardin, Alceu de Amososo Lima, Hermann Hesse, Gabriel Garcia Marquez, John Ford, Ulisses Guimarães, o comandante Che Guevara, entre outros. Vou encontrar também o poeta Manuel Bandeira, a quem pedirei licença, para dizer seus versos:

“Vou –me embora pra pasárgada
Lá sou amigo do rei”.

*Ex- professor de Sociologia e Estudo dos Problemas  Brasileiros, da Unitau