Páginas

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

ALCKMIN DISSE QUE VAI APURAR

Professor Silvio Prado

(Descobri o texto abaixo perdido num canto da memória do computador. Escrito no ano passado, resolvi publicá-lo agora. É mais um relato indignado sobre a corrupção no Metrô de São Paulo, encontrado exatamente na semana em que Robson Marinho, tucano que presidia o Tribunal de Contas do Estado, recebeu da justiça um merecido ponta pé no traseiro por envolvimento em mutretas e propinas que empresas como a Alston e Siemens fizeram e pagaram para vencer licitações tucanas no sistema de trilhos paulista. Devido ao acobertamento pela grande imprensa, e também pela morosidade da justiça, o tema permanece atual.)

Alckmin está fazendo malabarismos buscando convencer a opinião pública de que o escândalo da Siemens é mais uma mutreta petista produzida contra ele. No seu malabarismo não faltaram poses de extrema seriedade e a frase habitual: tudo será rigorosamente investigado.

Quem acompanha a vida política do governador já perdeu a conta de quantas vezes frase semelhante foi pronunciada, mas não se lembra de nenhum resultado das investigações prometidas.

Alckmin sabe muito do poder explosivo do escândalo da Siemens e o quanto de revelações comprometedoras poderão surgir nas investigações do Ministério Público ou mesmo de uma CPI.

Dizer que ignora essa teia de relações promíscuas debaixo de seu proeminente nariz é chamar a população de boba ou se mostrar administrativamente incompetente. Como pode um lesivo cartel de multinacionais funcionar a todo vapor durante quase vinte anos e não ser percebido por gestor que se diz tão competente, integro, preocupadíssimo e zeloso com os bens do Estado? Não é com essa imagem que Alckmin se apresenta?

Como pode carretas de dinheiro saindo durante anos do cofre público e nada ser notado?

Mesmo que a grande imprensa não tenha se empenhado em aprofundar denúncias feitas desde 2008, inúmeras vezes gente tucana foi flagrada numa relação de envolvimento suspeito com empresas participantes de licitações e obras do Metrô, como provam documentos do MP.

É o caso de Robson Marinho, político valeparaibano (ex-deputado federal tucano, ex-chefe da Casa Civil do governo Covas, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado) que, segundo a imprensa, na relação com o cartel multinacional já ocupou a função de distribuir entre os contemplados a grana que facilitou a vitória das multis em licitações do Metrô.

Mesmo que alguns setores da grande mídia já não consigam esconder o escândalo, o tratamento dado ao assunto continua ameno e pouco contundente. Se entre os envolvidos estivesse alguém do PT ou de qualquer “sigla vermelha”, todos os participantes do esquema seriam quadrilheiros, bandidos, e o Jornal Nacional seria aberto com revelações surpreendentes ou impossíveis de ser provadas. A decadente Veja produziria capas impossíveis. A Folha combinaria com o Estadão uma manchete única para os dois jornais, e a Joven Pan, com a voz de cemitério de seus locutores, completaria o linchamento.

Enfim, como somos cidadãos de boa fé e acreditamos em gnomo, Papai Noel, Saci Pererê e até na Rede Globo, vamos aguardar (devidamente sentados) as apurações rigorosas prometidas por Geraldo Alckmin.