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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O AÉCIOPORTO

Celso José de Brum, sociólogo

(Publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

É possível que os meus caros, raros, fiéis e inteligentes leitores e a maioria dos que eventualmente frequentam este oásis de reflexões heterodoxas, não tenham ouvido falar do assunto.

A manchete da “Folha” de domingo, 20/7, dizia: “Minas fez aeroporto em fazenda de tio de Aécio”, assim, mui respeitosamente. A manchete deveria ser assim: “O governador Aécio Neves fez aeroporto na fazenda de seu tio”. Pois, foi Aécio Neves, então governador, e não Minas, o responsável pela obra que custou 14 milhões de reais, hoje atualizados, quase 20 milhões.

No entanto, não se trata de um aeroporto: é apenas uma pista de pouso, sem os equipamentos de um aeroporto. Tanto que não está sob o controle da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) até hoje.

A “grande imprensa” esmerou-se em possibilitar espaço privilegiado para defesa (esfarrapada, porque não dizer, muito esfarrapada, por certo esfarrapadíssima ) do inefável candidato tucano. Com aquela  cara-de-pau , untada e besuntada em hectolitros de óleo de peroba concentrada, ele alegou que tudo foi legal, no interesse de Minas, quem quiser que acredite. E quem acreditar terá direito a levitar e a ser visitado por Papai Noel, por duendes, pelo ET e pelo chupa-cabra.

Mas, o aécioporto tem, neste meu artigo, o papel de Pilatos no Credo: serve apenas como motivo para uma das minhas costumeiras imprecações contra a direita e contra a “grande imprensa”.

Porque o aécioporto foi tratado com leveza pela grande imprensa. Ah, se o governador fosse do PT!... Se o governador fosse do PT, teria havido uma manchete por dia, fotos, análises, comentários, o diabo a quatro. Certamente as emissoras de TV e rádio iriam “cair matando”, não deixariam barato, destacariam equipes numerosas só para ampliar o caso ao extremo inimaginável. Mas, como o então governador é do PSDB e o PSDB serve à direita e a direita é a inspiração da “grande imprensa”, então que tudo fique leve e diáfano.

Como leve e diáfano ficou o caso do trensalão (o cartel do metrô) e o caso da privatização tucana, revelado no livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., “A Privataria Tucana”.

E eu pergunto: você viu alguma manchete dos órgãos da “grande imprensa” (exceções: a revista Carta Capital e a Rede Record) sobre o livro “A Privataria Tucana”?  Não viu porque não houve. O livro, com 100 páginas de documentos, traz gravíssimas acusações contra o governo de Fernando Henrique Cardoso e contra José Serra e seus parentes próximos. A “grande imprensa” ignorou o livro.  Ouço dizer que, com uma década e meia de atraso, as denúncias começarão a ser investigadas. Com os trâmites legais previsíveis, é possível que muitos crimes sejam prescritos. No entanto, os fatos ocorreram muito antes do chamado mensalão do PT.

Também o mensalão mineiro, protagonizado pelo PSDB, aconteceu antes do mensalão do PT e enquanto este foi julgado pelo Supremo, o mensalão mineiro foi enviado para a 1ª instância e, também aqui, é quase certa a prescrição dos crimes, antes do final da tramitação. Enfim, o “ferro” é só para o PT, cujos acusados sem foro especial, teriam que ser julgados em 1ª instância. Porém, a “grande imprensa” exigia o linchamento rápido do PT.

Enquanto isso, a “grande imprensa” continua a posar de vestal e a esquerda não se dispõe a criar pelo menos um jornal (há condições efetivas para isso) para ser um contraponto a este noticiário cartelizado direitista, com viés fascista.

E vocês, meus caros, raros, fiéis e inteligentes leitores, haverão de perguntar ao autor destas mal traçadas linhas: “Se a ‘grande imprensa’ é esta vilã, tal como é apresentada nesta coluna, como publicaria a notícia contra o candidato da direita?”.


Minha resposta:  Realmente fiquei perplexo, confesso impavidamente. E só me ocorreu que o jornal, dentro dos ideais quatrocentões da finíssima elite paulistana, à qual seus próceres pertencem, queira liquidar o candidato mineiro e substituí-lo por um paulista impoluto e sem jaça e não havendo um paulista impoluto e sem jaça disponível, que vá o José Serra mesmo.