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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O PASTOR E O JORNALISTA

Silvio Prado, professor

Depois que Edir Macedo, inaugurando o templo de Salomão, na zona leste de São Paulo, incluiu na pomposa cerimônia o hino de Israel, não ficou dúvida alguma sobre um dos muitos objetivos políticos da Igreja Universal do Reino de Deus. Como se fosse um rabino, e não o bispo/chefe espiritual de uma das maiores igrejas evangélicas do mundo, e exatamente numa hora em que a opinião pública mundial se levanta em criticas pesadas contra a intensificação do massacre palestino, Edir Macedo reverenciou Israel.

O estado de Israel, mesmo sendo criado em 1948, a partir de negociações que passaram pelos interesses das grandes potências, além de intensivas ações terroristas de vários grupos israelenses contra o domínio inglês na Palestina, na cabeça de muita gente evangélica é o único, entre todos os estados da terra, que foi criado por Deus. Assim deve pensar também o bispo-rabino da Universal.

Essa ideia de que o Deus cristão é o criador de Israel tem servido para os fundamentalistas, muitos deles católicos, como justificativa para condenar todo aquele que se atreve a criticar a política de extermínio imposta aos palestinos. Faça o absurdo que fizer com os palestinos, Israel não deve receber sanções ou criticas, mesmo que sejam as de um governo, como o do Brasil, cujo representante na ONU, Osvaldo Aranha, conduziu os trabalhos que geraram a criação daquele estado no ano de 1948.

Entoar o hino israelense numa solenidade de inauguração de um templo evangélico brasileiro não se trata de uma mera formalidade. É uma das expressões mais fortes de um projeto político que não se esgota na simbologia de uma opção religiosa, e serve para aglutinar correntes evangélicas diversas na defesa dos interesses do estado de Israel, entre eles coisas humanamente indefensáveis, como as muitas atrocidades que resultam do conflito na Faixa de Gaza.

Duas semanas depois da inauguração do templo de Salomão, o jornal da Record, braço midiático da Igreja Universal, tem apresentado desde o dia 11 de agosto uma série de reportagens sobre o Hamas, um dos grupos da resistência palestina, por sua vez também de orientação fundamentalista.

As reportagens da série sobre o Hamas não são reportagens, mas sim descarada panfletagem a favor dos interesses israelenses. Nas longas matérias, chamado a toda hora de terrorista, o Hamas é responsabilizado, sozinho, pelo cenário de violências na região. Falando sobre os quilômetros de tuneis por onde passam tudo o que materialmente os palestinos precisam para sobreviver ( inclusive armas), o repórter informou que os milhões gastos com as escavações poderiam ser aplicados construindo escolas ou hospitais, instituições que, se não existissem os tuneis, todos sabem, seriam bombardeadas por outro motivo que os sionistas que dirigem Israel arrumariam com a maior tranquilidade.

Porém, ao falar dos longos tuneis na Faixa de Gaza, a “reportagem” esqueceu de falar sobre a razão dos próprios tuneis, não tocando nem de longe nos 700 Km de um muro de 9 metros de altura que separa palestinos dos judeus ou nas centenas de barreiras que impedem o trânsito da população dominada. Não falou nas estradas exclusivas para judeus e proibidas aos palestinos. Nem mostrou sinais dos assentamentos judeus construídos sobre terras onde antes viviam milhares de palestinos. Em nenhum momento a reportagem mencionou semelhanças de Gaza com os muitos campos de concentração onde, na Segunda Guerra Mundial, seis milhões de judeus foram exterminados pelo nazismo.

Na quarta-feira, 13, o Jornal da Record entrevistou um ex-militante do Hamas que, depois de desertar da organização, trabalhou como espião para israel. Segundo a “reportagem”, filho de um líder religioso, o ex-militante cresceu “no meio da violência e do ódio” e só veio conhecer a paz quando mudou de lado e aceitou o cristianismo. Pelo relato, violência e ódio existem na região unicamente como resultado do extremismo do Hamas e jamais pela política de ocupação e expansionismo militarizado que vem dos sionistas.

O ponto de vista defendido pelo Jornal da Record é o mesmo ponto de vista defendido pelo criador do faustoso templo de Salomão, mesmo que a voz precisa do apresentador Celso Freitas não derrame a cada duas palavras meia dúzia de versículos ou citações bíblicas.

Num altar, de posse de um texto que fundamenta sua crença, um religioso pode ter a liberdade de dizer que ouviu de Deus o que está saindo de sua boca. Ao dizer isso, esse Deus, tirando toda a responsabilidade dos homens, está ditando o que é certo ou errado. Ou, se quiser ir mais longe, pode dizer também qual povo deve viver ou qual deve ser exterminado em qualquer canto do planeta. Enfim, acredita quem quiser e tem fé para tanto.

Porém, num programa jornalístico, por mais que a matéria seja cuidadosamente produzida, os fatos não podem ser enfileirados buscando um ajuste forçado com interesses ideológicos que tentam discipliná-los. Os fatos, independente da vontade de quem os relata, possuem naturalmente contradições que não podem ser negadas nem suprimidas por impactos da ideologia ou da fé. Assim, o relato ou a interpretação dos mesmos em qualquer reportagem verdadeiramente jornalística não pode contar com recursos que desinformem ou produzam concepções de mundo estimuladoras de fanatismos.

Uma coisa é a pregação de um pastor ou religioso qualquer. Outra, é o relato do jornalista. Apesar de diferenças tão distintas, tudo parece ser uma coisa só em alguns programas da Record do bispo/rabino Macedo.