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terça-feira, 26 de agosto de 2014

SERRA: SORRISOS, APERTOS
DE MÃO, BEIJINHOS

Silvio Prado, professor

Cruzei com o José Serra, na terça-feira, 19, na praça Dom Epaminondas. Fingi que não vi tão estranha criatura bem na minha frente. Magro feito uma múmia egípcia, lá estava ele outra vez disputando votos. Duas gordas senhoras não resistiram e acenaram para o tucano. Rápido feito um garotinho, ele alterou o percurso e se aproximou da dupla. Sorrisos, apertos de mão e beijinhos no rosto de cada uma. Quantos sorrisos, apertos de mão e beijinhos serão dados por Serra até o último momento da campanha? Não se sabe.

Quem já teve Serra como patrão, principalmente na área da educação, conhece muito bem a letalidade administrativa desse que por duas vezes desgovernou São Paulo e agora anda batendo pernas atrás de votos. Negociar com ele é o mesmo que tentar um dialogo com uma barra de ferro ou pedaço de pedra. Impossível. Formado no movimento estudantil numa época dramática da história brasileira, o tucano teve que pular fora do país para sobreviver. De volta, parece que deixou lá fora toda a rica experiência adquirida no democrático movimento estudantil que precedeu a ditadura. Da linha de frente nas lutas democráticas, hoje ele é uma das fisionomias do atraso politico brasileiro.

Nos anos de governador, dava para sentir sua mão de ferro em qualquer escola do estado. Seus subordinados repetiam com precisão os mantras rezados por ele no Palácio dos Bandeirantes. Secretário da educação, dirigentes regionais, supervisores de ensino e todos os que ficavam mais abaixo na hierarquia do ensino, depois de intensivas reuniões e mil capacitações tinham os neurônios aptos a não produzir qualquer pensamento que contrariasse a doutrina oficial tucana imposta pelo ex-lider estudantil.

Quando entidades do professorado convocavam assembleias ou se atreviam a concentrar-se na avenida Paulista ou nas imediações do Palácio dos Bandeirantes, Serra punha sua polícia na rua e qualquer deslize gerava pancadaria sem fim. Foi na frente do Palácio que se deu uma grande e absurda batalha entre as duas policias de São Paulo, a Militar e a Civil, esta lutando por melhorias das condições de trabalho e salário. Quase deu tragédia.

Confirmando as previsões, Serra poderá desbancar nessa eleição o senador Suplicy, um politico que muita gente considera ultrapassado e já sem gás, mas que traz consigo uma irrepreensível história de luta pela democracia e defesa dos mais pobres, como todo mundo viu pela atuação do senador petista no desastre que o tucano Alckmin em 2012 produziu no bairro do Pinheirinho, São José dos Campos.
Com certeza, a campanha de Serra continuará se desenvolvendo na base do aperto de mão, sorrisos, beijinhos, comilança de pastel de feira ou cafezinho na casa de um e outro eleitor que se sente honrado com sua presença. Mas bem que poderia incluir, além das tradicionais amenidades, contatos com pessoas que leram sobre ele no livro A Privataria tucana, do jornalista mineiro Amaury Ribeiro Junior onde o ex-ministro da saúde, ex-governador e ex tantas outras coisas é radiografado em detalhes num emaranhado de tramas e casos de corrupção.

Devido à blindagem da imprensa às mazelas tucanas, pode ser que em nenhum momento Serra venha a se defrontar com qualquer enraivecido que tomou ciência de sua participação, junto com Covas e Alckmin, no escândalo chamado Trensalão, pelo qual os cofres de São Paulo perderam uma grana que, dizem, ultrapassa um bilhão de reais. Pelo que se vê, o candidato tucano não passará pelo vexame de ser questionado ou cobrado pela participação nessas maracutaias, apenas conhecidas por gente de razoável informação.

Experiente e calejado, e devidamente blindado pela poderosa mídia, o candidato tem tudo para ser o senador eleito por São Paulo e, assim, ser mais uma voz conservadora exigindo, em Brasília, cortes de direitos dos trabalhadores, aumento da repressão aos movimentos sociais e estancamento de politicas que nos últimos anos fizeram o país dar alguns passos seguros na direção de uma sociedade menos injusta.