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terça-feira, 23 de setembro de 2014

ARMA NA ESCOLA

Silvio Prado, professor

Recentemente, responsabilizei a prefeitura de Taubaté pelo assassinato de uma professora no interior de uma creche, na Vila Canuto Borges, e fui criticado por discordar daqueles que entenderam que o acontecimento fora apenas um ato passional, resultado de um relacionamento amoroso que não dera certo.

No artigo que escrevi, citei vários atos de violência ocorridos em escolas municipais. Porém, meus argumentos não serviram para nada. Meus críticos fizeram coro com a Secretaria da Educação, interessada em silenciar qualquer discussão sobre a precariedade escandalosa que emperra o funcionamento da escola pública municipal. O brutal assassinato não tinha nada a ver com as condições materiais da escola e muito menos com o modelo de organização da vida escolar em nossa cidade, disseram. Alguém chegou a afirmar que eu estava fazendo demagogia.

Claro que em torno da argumentação baseada na passionalidade que gerou a tragédia havia convicções sinceras, mesmo que baseadas numa leitura ingênua dos fatos. Da parte da prefeitura, não havia ingenuidade, mas procedimentos objetivando dar tempo ao tempo, desconversar sobre o assunto, jogar a sujeira sob o tapete e fugir da responsabilidade que lhe cabia. Afinal, uma escola foi invadida e um de seus professores caiu sob as balas de um desequilibrado. Portanto, se o assassino tinha que ser punido, a prefeitura, responsável pela segurança de todo funcionário, tinha também que ser cobrada por não ter garantido um mínimo de segurança naquele local de trabalho, ou seja, uma escola.

Infelizmente, agora, provando tudo o que escrevi no passado, aparece a notícia de que um menor, no correr da semana, pulando o muro, apareceu dentro da escola Judith Campista César empunhando uma arma e expressando desejo de matar a diretora da unidade. Diante do novo fato, o que agora a gerência do ensino local vai afirmar? Qual o discurso oficial da prefeitura e de sua secretária da educação sobre o ocorrido? Trata-se de mais um fato violento isolado e casual?  Ou, novamente, ficou escancarada a insegurança que impera na maioria das escolas municipais, colocando sempre em risco alunos, professores e funcionários?

Como se pode constatar, parte do aparelho repressivo da cidade já colocou a escola Judith sob seu foco. Guardas municipais da prefeitura e policiais da Atividade Delegada vão reforçar a segurança da escola. Resolve? Não.  Dentro de poucos dias, esses guardas e policiais serão deslocados para outro local onde a exigência de segurança não pode, pelo menos temporariamente, ser ignorada pelas autoridades porque um outro fato, tão  grave quanto este, voltará a ocorrer. Não se trata aqui de fazer previsões pessimistas, mas de considerar a dura realidade enfrentada pela escola brasileira. A escola brasileira, incluindo evidentemente a taubateana, mesmo sendo um local extremamente estratégico para o desenvolvimento humano e econômico de um povo vive jogada num segundo plano. Ela está escancarada para todo abusado, armado ou não, que queira fazer das suas com alunos ou professores.

Além da precariedade e da organização divorciada dos interesses verdadeiramente educacionais, a escola segue geralmente uma rotina que não empolga nem alunos e nem seus pais e, só muito raramente, mantém algum tipo de parceria produtiva com a comunidade que a cerca. Distante e divorciada da comunidade, e enquadrada por projetos impostos pelos burocratas de plantão, seu ensino não decola e se torna palco de coisas reprováveis.

Recentemente a Secretaria da Educação de Taubaté foi premiada em razão de projetos reconhecidos de valor para a educação da juventude. No entanto, educadores como Fernando Borges afirma que uma coisa é apresentar projeto para premiação e consagração pública de seus criadores. Outra coisa, bem diferente, é o projeto ter empatia e ter respaldo nas necessidades reais da escola.

Em Taubaté, não é difícil constatar, os gestores da educação pública municipal pecam pelo artificialismo de seus projetos, cada vez mais distantes da realidade dos alunos. Para essa gente, a escola é uma realidade desconhecida, porém enquadrada em regras alheias aos interesses do ensino. Por isso, não surpreende que alunos pulem muros e entrem armados levando um pouco mais de violência para um espaço já violentado pela burrice de quem diz que governa e administra a educação.

Enfim, se o estado (incluindo objetivamente a prefeitura de Taubaté) cuidasse melhor da escola e desse a ela a prioridade anunciada nos programas eleitorais, ninguém pularia seus muros ou nela entraria com armas de fogo, isso em Taubaté ou qualquer outro lugar do país. Portanto, quando a educação for   de fato   prioridade a escola será outra e não  teremos nela nada que confronte seus objetivos fundamentais. E nem teremos secretários e burocratas da educação carregando no discurso para esconder o obvio, ou seja, o abandono de algo que jamais deveria ser abandonado.