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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DESESPERO TUCANO

Silvio Prado, professor
Em Taubaté, num pequeno restaurante do centro da cidade a tevê mostra cenas do horário eleitoral petista. Na tela, Dilma, sob um apertado abraço de Lula, ouve o estrondoso aplauso da plateia de intelectuais e artistas que encheram o auditório para lhe prestar apoio político. Depois, firme e determinada como sempre, a candidata põe-se a discursar.
Numa das mesas do restaurante, dois homens e uma mulher não disfarçam a irritação:
- Cachorra, diz um deles.
- Vaca, acrescenta o outro.
O primeiro homem só não esmurra a mesa porque sabe que faria voar os pratos de comida que estão sobre ela. A mulher, sentada e comendo com eles, entra na conversa:
- Mas ela pode ganhar essa eleição, certo?
- Não com o meu voto, responde o mais velho deles.
- Nem com o meu, diz o outro, depois de uma garfada enraivecida sobre o bife acebolado que tem no prato.
Como se fosse uma indesejável trilha sonora da irritada conversa entre tucanos, o discurso da candidata do PT enche o ambiente e prende a atenção de todos.
A mulher, mesmo sendo eleitora de Aécio Neves, parece ter prazer em provocar os dois companheiros que no primeiro turno também votam no candidato tucano.
- Se houver segundo turno, a Dilma enfrenta a Marina. E aí, como vocês vão fazer?
- Credo! Não me fale nesse nome.
- Vou anular o voto. Anular, entendeu?
- Eu não. Voto na Marina, viu? O PT precisa perder de qualquer maneira, diz ela.
- Marina também é comunista, porra!, diz quase gritando o mais velho dos homens.
- Petista é pior do que comunista, bem pior, sabiam? responde asperamente a mulher.
-Pensando bem, foda-se o Brasil, grita o outro companheiro de mesa que, não mais controlando a irritação, bruscamente se levanta e pede para o dono do estabelecimento desligar o aparelho de tevê.
Próximo dali, atrás de um copo de cerveja qualquer, tinha gente não sabendo mais o que fazer para controlar uma boa e bela gargalhada.