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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

DILEMAS DA DIREITA

Celso Brum, sociólogo*

As ultimas pesquisas tem colocado Aécio Neves (também conhecido como Aécioporto) com 15%. Em circunstancias normais (não fosse o fenômeno Marina Silva) ele estaria com 25% ou pouco mais. Seus votos estão sendo drenados pela candidata do PSB e isto parece ser uma tendência de difícil reversibilidade.

Aécio era o candidato da direita e também o candidato da oposição, nessa ordem. O seu partido, o PSDB – que começou dizendo-se moderno e da social democracia – há muito tempo tornou-se um pastiche da antiga UDN (União Democrática Nacional, do Carlos Lacerda, o corvo), mais rançoso e direitista do que seu modelo original. E, como as éguas se coçam, a direita reconheceu o PSDB como seu braço político institucional e lhe tem dado o apoio substancial para garantir sua viabilidade.

Aécio não era o candidato preferido da direita. O eterno candidato da direita – e seu máximo ícone – é e será sempre o inefável Fernando Henrique Cardoso. Pela ordem, a direita ama o cool e clean Geraldo Alckmin, aceita o José Serra e engole- apenas engole - o Aécio Aécioporto Neves. Sua candidatura foi uma consequência do desgaste de José Serra e do desinteresse de Geraldo Alckmin em ser candidato. Aí, literalmente sobrou pra ele e a direita (especialmente a direita de São Paulo, a mais poderosa facção do direitismo brasileiro) teve que aceitá-lo, embora sabendo de sua pouca expressão nacional e da dificuldade de fazê-lo aceitável entre o eleitorado paulista e, sobretudo, aos exigentes quatrocentões paulistanos. Com todas as restrições, Aécio Neves era o que a direita tinha para enfrentar Dilma Rousseff e a primeira tarefa era levar a eleição para o 2º turno.

Ora, levar a eleição para o 2º turno era, consequentemente, ter uma grande votação e, uma grande votação para presidente resulta numa grande votação para os demais cargos eletivos. O PSDB, nas ultimas eleições gerais, tem perdido votos e, portanto, suas bancadas na Câmara Federal e no Senado têm diminuído, a cada eleição. Essa sangria precisava ser estancada porque, no Parlamento, o PSDB tem sido o melhor defensor dos interesses da direita.

Com a queda de Aécio Neves nas pesquisas, as perspectivas para a eleição proporcional (Câmara Federal e Senado) tornam-se dramáticas para a direita (leia-se, o PSDB e seus associados). Pergunta-se: o que fará a direita? Permitirá – sem nenhum esforço em sentido contrario – que Aécio Neves e o PSDB sejam derretidos pelo calor que emana da candidatura de Marina Silva (que começa a adotar posturas caras à direita, como a independência do Banco Central) ?

A direita se divide em direita pragmática e direita arreganhada. A direita pragmática não gosta do PT, mas, gosta de ganhar dinheiro e de bom negócios, portanto, gosta de estabilidade institucional. Essa direita adoraria ver o PSDB no poder, mas, se isto não for possível, prefere a estabilidade institucional, para continuar ganhando dinheiro. Já a direita arreganhada quer o golpe e qualquer coisa que leve ao golpe é bem-vinda, com o PSDB ou até sem o PSDB.

A direita arreganhada vê, em Marina Silva, a possibilidade de uma crise institucional (acredita que o confronto de Marina com o Congresso é inevitável) e uma crise pode levar ao golpe. Essa direita arreganhada não perde o sono se, havendo crise, o Brasil tenha perdas terríveis e que o povo brasileiro se lasque. Para a direita arreganhada o importante é tirar o PT do poder, mesmo que o golpe não seja possível e que uma crise se prolongue, com as previsíveis consequências sociais e econômicas. Para a direita arreganhada é tirar o PT do poder, a qualquer preço.

Essa pergunta, no entanto, não quer calar: Aécio e o PSDB serão mesmo abandonados pela direita? Ou já foram abandonados e a direita põe todas as suas fichas na eleição de Marina Silva?

Por outro lado, o surto que leva uma legião de inconformados (contra a lei da gravidade e outras platitudes) para o redil de Marina Silva é consistente ou haverá um momento de reflexão e uma mudança de rumo? A nova classe média (de onde parece vir grande parte dos votos de Marina Silva) vai mesmo colocar em risco suas conquistas obtidas nos últimos anos, por um vago e instável projeto reformista?

São muitas as perguntas que o momento levanta. De tudo o que me parece mais desafiador é o aparente abandono de Aécio Neves pela direita e a pouca ou nenhuma preocupação com o destino do PSDB.

A Democracia e os democratas têm motivos de sobra para se preocupar com a direita. Portanto, cabe mais esta pergunta: o que estará sendo tramado nos arcanos da direita do Brasil? Coisa boa não é.

*Ex- professor de Sociologia e Estudo dos Problemas Brasileiros da Unitau