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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

OS LEGUMES

Celso Brum, sociólogo*

(Artigo publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Diz-se que um sujeito morreu e, chegou à sala do julgamento, na eternidade. E Deus perguntou-lhe: “Como foram suas ações na Terra?” E o sujeito respondeu: “Meu Deus, meu bom Deus, meu Deus magnífico e poderoso, eu passei minha vida fazendo coisas que não eram boas, nem ruins, eu sou da 3ª via, nem esquerda, nem direita, 3ª via”. E Deus, do alto de sua infinita sabedoria, falou com sua voz tonitruante: “Estão me aparecendo aqui muitos colegas seus, dessa turma da 3ª via. No começo fiquei um pouco perplexo e não sabia se mandava os infelizes para o céu ou para o inferno. E aí decidi fazer o que farei com você: vou manda-lo de volta à Terra...” O sujeito vibrou com a notícia, mas Deus continuou: “Vou mandá-lo de volta à terra, diretamente para o reino vegetal. Você vai virar legume”.

Peço perdão a Deus por invocar Seu santo nome, nesta pequena parábola, que criei depois de conversar com um grande amigo. Encontrei-o, no fim de semana passada. Ele que sempre está alegre e fagueiro, desta vez estava sério e meditabundo. Conversamos e ele falou justamente da 3ª via:

“Terceira via não existe, isso é conversa pra boi dormir. O que existe é direita e esquerda. Mas, tem gente que pretende ‘fazer’ de conta que existe uma terceira via, nem direita, nem esquerda. Falácia, conversa fiada.

As coisas funcionam assim: se você não é de esquerda, é de direita ou conivente com a direita e ponto final.

A direita é à direita do esquadrão da morte, das torturas, dos assassinatos políticos, do arrocho salarial, das privatizações sem causa, do predomínio do mercado, do desemprego e da crise. Para a direita, a pobreza é uma fatalidade histórica e ,de mais a mais, os pobres que se lasquem, quem mandou nascer pobre, essa gentalha que se reproduz como ratos.

‘Ah, eu não concordo com essas coisas, sou apenas contra a esquerda, contra esses comunistas’, diz o sujeito da 3ª via.

Mas é justamente a esquerda que efetivamente luta contra os desmandos da direita, é a esquerda que, sendo a vanguarda da civilização, atua no sentido de defender os injustiçados e perseguidos, de retirar da pobreza os deserdados e de instaurar um tempo de justiça social, através da distribuição de renda. A esquerda é por um tempo de desenvolvimento, pela inclusão social das massas, dando-lhes acesso aos benefícios da educação, da saúde e do lazer, desenvolvimento esse que só se justifica e se realiza plenamente, quando todos, sem exceção, tem seus direitos respeitados: direito à vida e à felicidade.

Essa bobagem de 3ª via me irrita, sinto-me desrespeitados por essa gente que me considera um imbecil, falando essa bobagem e imaginando que pode me enganar.

Para mim, essa gente que fala em 3ª via o faz por desídia e malícia, mas, vamos nos iludir que alguém de boa vontade se diga da 3ª via. E que esse alguém se eleja presidente da República. Na presidência da República, esse alguém terá de dar um rumo ao governo e o fará, tomando algumas medidas iniciais: ao escolher o ministro da Fazenda, terá escolher quem privilegie o desenvolvimento com inclusão social, com a proteção ao emprego e aos salários ou quem privilegie o mercado. Em economia não há 3ª via, é uma coisa ou outra e ponto final.

Se esse alguém torna o Banco Central independente (atualmente, o Banco Central está integrado à política do governo) e não existindo 3ª via para ações do Banco Central, este adotará as chamadas medidas ortodoxas, sempre recessivas, para reduzir os índices inflacionários.

A atual candidata da ‘3ª via’ tem escutado gente da direita, que fala também do estado mínimo. Os jornais divulgaram que o seu candidato à vice teria declarado – a respeito da falta de base parlamentar da candidata – que seriam convocadas as ruas para pressionar o Congresso. É bom lembrar que tanto Jânio Quadros como Fernando Collor tentaram usar tal expediente, com os desfechos conhecidos. Por outro lado, imaginar que é necessário manter um estado de permanente beligerância, em relação ao Congresso, não pode ser entendido como normalidade democrática.

Enfim, como nas manifestações de 2013, eu sinto que a direita está encontrando uma possibilidade de infiltrar-se, agora numa candidatura que tem uma perspectiva de poder, para conseguir um retrocesso quanto às metas de desenvolvimento e inclusão social ou, até, para um golpe (de alguma forma, eis que, nisso, a direita é especialista) cujas consequências são inimagináveis”.

Eu já estava aturdido e mais aturdido fiquei, com os argumentos do meu amigo.

No entanto, a grandeza do processo democrático é que os eleitores podem influir no seu futuro, escolhendo os melhores candidatos. Então, digo eu, aos eleitores: pensem bem e saibam discernir entre esquerda e direita. Apesar dos rótulos, esquerda e direita é tudo o que existe.

*Ex- professor de Sociologia e Estudo dos Problemas Brasileiros, da Unitau