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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SAÚDE PÚBLICA PAULISTA, UM HORROR!

Silvio Prado, professor

Em março, acompanhei um amigo para consulta e exames médicos no Hospital de Clínicas, em São Paulo. Marcados para começar as 13 h, chegamos no hospital pouco antes das onze. Mesmo bem antes do horário, meu amigo, sob dores impostas pelo mau que o aflige, dirigiu-se ao local em que deveria ser atendido e comunicou sua presença. Uma funcionária o atendeu e confirmou o horário marcado e o médico anteriormente agendados. Despreocupados, saímos em busca de um local onde pudéssemos almoçar.

Após o almoço, pegamos outra vez uma enorme fila. Diante da funcionária encarregada pelo encaminhamento dos pacientes, uma triste surpresa: o médico não tinha consultas marcadas para aquele dia e nem estava no Hospital. Atônitos, fomos em busca da explicação. Por quase uma hora procuramos quem pudesse esclarecer o que de fato estava acontecendo.

Passamos pela Ouvidoria do Hospital das Clínicas, que nada soube informar. Então, voltamos a falar com a funcionária que primeiramente nos atendeu naquele dia. O tão desejado médico, informou a funcionária, estava de férias e  só voltaria a trabalhar no final do mês.

A partir daí, possuído por um sentimento de impotência não sabia o que dizer diante do desencanto de um doente que saiu de Taubaté, bem de manhã, na expectativa de retornar com um algum alívio para tanto sofrimento acumulado em quatro duros anos. Ao sofrimento acumulado juntou-se mais aquele fato triste, próprio de um país onde a vida humana faz tempo  vale coisa alguma nos corredores da saúde pública. Também naquela hora, entre certezas cruéis surgia uma dúvida, também cruel: será que no retorno marcado para o final do mês o médico já estaria exercendo suas atividades?

A cena de um doente com olhos perdidos pelas paredes do hospital não foi protagonizada apenas por essa pessoa que acompanhei em busca de cuidados médicos. Absurdamente, ela estava em toda parte, pelos corredores, escadarias, elevadores, salas de espera. No setor de ortopedia, onde ficamos, deu para ver coisas pavorosas devido ao sofrimento que a doença traz. Quanta dor e desencanto, agora ainda mais agravados, pela péssima e desrespeitosa estrutura do atendimento!

O descuido com a estrutura do hospital não era pequeno. Dos três elevadores do imenso prédio, dois estavam em manutenção, o que provocava filas imensas, tumultos e até discussões entre os que precisavam usá-los, além da insegurança gerada pelo excesso de pessoas que subiam e desciam praticamente amontoadas, algumas  em cadeiras de roda. Descaso e dor se misturavam em toda parte.

A conversa que tive com um paciente, um senhor com seus cinqüenta anos, resumiu de forma cristalina o drama de quem precisa dos serviços de saúde pública no estado desgovernado pelo tucano Geraldo Alckmin.O homem, tenso, mostrando documentos e exames clínicos pré-operatórios, esperava há mais de seis meses por uma cirurgia (ele não me disse qual era)  e não entendia porque o médico responsável sempre vinha adiando o tão aguardado, e necessário, procedimento médico. O seu temor era ter de refazer alguns dos exames, caso a operação fosse adiada novamente. Na saída, o encontrei sob a mesma tensão. Ele trazia nas mãos um pedido para um novo exame marcado, acreditem, para o final do mês de maio, praticamente dentro de sessenta dias.

Aqui no Estado de São Paulo, onde se usou indevidamente mais de 1 bilhão de reais em obras do Metrô, ou milhões de outros reais para que a  mídia não exponha as infindáveis mutretas em torno do governador, entrar numa unidade pública de saúde (mesmo que seja o conceituado Hospital das Clinicas) é de certa maneira  virar figurante ou  protagonista de filmes de horror, com cenas e efeitos que colocam qualquer cineasta do gênero no chinelo.

Importante dizer: a doença que tanto atormenta meu amigo  continua do mesmo jeito. De trinta em trinta dias, ele comparece ao Hospital das Clinicas para procedimentos que poderiam ser realizados aqui em Taubaté, caso o governo paulista, depois de quase 20 anos, tivesse equipado nossa  região com instrumentos e médicos hoje só encontrados no HC paulistano. As dores permanecem e o tratamento privado custa caríssimo.

Infelizmente, trata-se de uma tragédia produzida pela incapacidade e insensibilidade de um governo que precisa ser investigado o mais profundamente possível. No estado de São Paulo, não é só a policia militarizada que mata. O sistema de saúde, com seu descaso  e precariedade, também faz o mesmo!

Por isso, repito: Geraldinho chuchu Alckmin, nunca mais!