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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ALCKMIN NUNCA MAIS

Silvio Prado, professor

Só se o cara estiver louco, sob o poder daquela ”pedra” ou na mira de um revolver. Só se ele, levando um tombo na escada da escola, bateu a cabeça em algum degrau e perdeu a razão. Só se ele, na correria entre uma escola e outra, espremido num ”busão” qualquer, teve um surto inexplicável e se tornou capaz de coisas que não se encaixam em sua história.

Se o cara, ou seja, o professor, estiver sob o peso trágico dessas fragilidades, talvez ele vote no Alckmin. Caso contrário, professor que é professor, que conhece e suporta a ralação diária na escola, se benze pelo menos três vezes quando ouve falar o nome da tal figura. Como o diabo foge da cruz, o professor quer distância de Geraldo Alckmin, figura insossa, destrutiva, que fez da educação do estado mais rico do país uma verdadeira caricatura. Por favor, não fale para o professor sobre Alckmin, secretário Herman e os caminhões de burocratas que engessaram o ensino. A gestão dessa gente põe a saúde e a integridade de qualquer um em risco.

Vulnerável e precarizada, a escola paulista é hoje uma fábrica de professores e funcionários doentes. Difícil a escola que não tenha no seu corpo docente dois ou três professores derrubados pela depressão. A violência e o desrespeito viraram rotina e qualquer aluno, já na fila de entrada, manda seu professor “tomar café e outras coisas” com a naturalidade grosseira de quem nunca deu um bom dia.

Na escolinha do anestesista Geraldo Alckmin não tem refresco. Em algumas, se você quiser e gostar, pode comprar drogas na entrada ou nos fundos do sanitário. Na vida real, ela é bem diferente daquelas sequências de imagens maravilhosas que o ano inteiro aparecem na televisão e, agora, no período eleitoral, são mais bonitas ainda.

Na vida real desse falso paraíso pedagógico, tem professor de Educação Física suplicando ao diretor bolas e materiais para suas atividades. Dependendo da insistência do não, o professor dá um jeito e compra com dinheiro do próprio bolso. Na sala de informática, quando funciona e não está sob pane elétrica, geralmente dez ou vinte computadores suportam a impaciência de quinhentos ou seiscentos alunos de uma escola inteira. Nas aulas de Física e Química, nada além da teoria, isso quando a escola tem professor.

No governo Alckmin, onde tem reformas de prédios escolares, não faltam certamente mutretas merecedoras de CPI, com portas de sala de aula custando 480 reais, seis vezes mais o valor pago em qualquer depósito de construção civil. Ou quadras esportivas cobertas, porém inundadas depois de meia hora de chuva.

Também, onde tem escola estadual reformada, tem a barulheira infernal que caracteriza qualquer obra, o cheiro maléfico de tintas e materiais químicos atordoando professores e alunos, o excesso de poeira, setenta alunos amontoados num espaço onde cabem apenas quarenta e, depois, quase sempre, obras incompletas entregues com preços superfaturados. Tudo conforme a FDE (Fundação Para o Desenvolvimento da Educação) faz e gosta, e o TCE (Tribunal de Contas do Estado) aprova com largo sorriso estufando os bolsos.

Mesmo assim, o professor, elemento central da escola, procura cumprir dignamente seu papel trabalhando em regiões onde geralmente, além da escola precarizada, o Estado oferece apenas a sua truculenta, preconceituosa e também precarizada polícia. Nada mais.

O professor sabe do salário indigno e dos riscos que corre. Sabe e sofre sob o rotineiro assédio moral que começa na principal sala da Secretaria da Educação e chega, intacto, na sala de aula, tudo para fazer funcionar projetos divorciados da realidade de quem pretende educar e daquele que de fato precisa aprender.

Por tudo isso, não acredito que professores possam votar em peso e conceder outra chance ao governador Geraldo Alckmin, um dos pais do trensalão e um dos principais mandantes do massacre do Pinheirinho, duas de suas grandes obras, que se completam com uma terceira, a destruição sistemática da escola pública e seu processo de privatização, nunca esquecendo de uma quarta obra, a secura do solo onde antes se acumulavam os bilhões de litros de água do complexo Cantareira.

Como disse no início, só se o cara estiver louco, sob o poder daquela “pedra” ou na mira de um revolver. Ai, possuído pela insanidade, o professor poderá investir contra seu maior patrimônio, ou seja, a sua dignidade, e correrá o risco de votar em Geraldo Alckmin. Quer dizer, votar contra seus próprios interesses.

Como não estamos sob a mira de um revolver e nem sob o poder daquela “pedra”, a nossa consciência tira uma de São João Batista (“aquele que clama no deserto”) e grita para quem ainda tem ouvidos capazes de ouvir: ALCKMIN NUNCA MAIS!

*Professor da Rede Estadual de Educação