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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

NADA DE CONCILIAÇÃO!

Silvio Prado, professor

Nada de conciliação e acertos pós eleitorais. Queremos o avanço da democracia e o fim dos privilégios da minoria abastada. Que ricos paguem impostos conforme o tamanho de suas fortunas e que banco algum, com suas taxas escorchantes, determine o humor e a falta de sono do cidadão comum.

Não queremos conciliação com racistas, homofóbicos, fundamentalistas e todo aquele que aposta no atraso social. Não queremos nem conversa. Queremos o cumprimento integral e a regulamentação das muitas leis ainda ignoradas da Constituição de 1988.

Não podemos ter acertos com aqueles que apostam no ódio e na divisão geográfica do Brasil. Estes, por conveniência, fazem de conta que o país não está socialmente dividido entre pouquíssimos ricos e uma multidão de pobres e miseráveis. Divididos entre os que cuidam da saúde nos melhores hospitais privados, e os que aguardam meses para simples procedimentos médicos na saúde pública.

O país, há séculos, está dividido entre quem paga salários de fome e aqueles que, para não morrer de fome, se viram fazendo bico sonhando um mísero pedaço de pão a mais sobre a mesa.

A divisão já existe: alguns habitam casarões de cômodos imensos em bairros de estrutura privilegiada. Outros, multidões incríveis, humilhadas, se espremem nos cubículos das Coabs e Cecaps da vida.

A qualquer hora do dia, pouquíssimos curtem o calor nas delicias de piscinas paradisíacas. No outro lado, pelo menos oito milhões, diante da seca da Cantareira não sabe se terá o banho da noite garantido.

A divisão existe desde o momento em que se ergueu a primeira casa-grande e, nos fundos, uma arquitetura sofrível, prisão noturna chamada senzala.

Desde que o primeiro branco, ainda na África, acorrentou o primeiro negro e o arrastou mar adentro para, aqui, neste inferno tropical, ser máquina de carne e osso produzindo riquezas para poucos, a escandalosa divisão se fez.

Quando Cabral fincou a primeira cruz e o latim da primeira missa soou desafinado ante o canto de tantos pássaros, a divisão foi proclamada e, depois, se aprofundou com o primeiro metro de terra indígena cuspindo cana sob mão de obra escravizada.

Quando, na farsa da Abolição, a mão de obra negra virou dejeto e a mão de obra europeia virou preciosidade patrocinada pelo Estado para eugenizar o país, como não enxergar tal divisão?

Estamos divididos e não queremos conciliação e nem acertos vindos do submundo dos bastidores. Queremos democracia. Ela, sim, quando verdadeira, coloca cada coisa no seu devido lugar e todo mundo no mesmo patamar.

Foi para isso que apostamos num segundo mandato para Dilma. Queremos uma democracia que vire a mesa farta onde pouquíssimos se locupletam e o restante, quer dizer, a maioria, vive de migalhas.

Temos longa tarefa a percorrer e queremos percorrê-la vendo, o mais rápido possível, os criminosos da Veja respondendo por tantos crimes jornalísticos. Queremos contar, centavo por centavo, dos bilhões que gente poderosa deve ao povo brasileiro. Que a Globo, quadrilha dos Marinhos, devolva os 600 milhões à Receita e toda a grana que vier de outros tantos processos de sonegação. Que o Itaú, sem nenhum acordo, devolva os 18 bilhões abocanhados ilegalmente das necessidades fundamentais do povo brasileiro.

Não queremos acordo, pois sonhamos ver na cadeia todos os tucanos do Trensalão, Banestado, mensalão mineiro. Não temos acordo com os protegidos do Joaquim Barbosa e nem com o próprio.

Nenhum acerto pós eleitoral vai nos dar a escola de qualidade que precisamos, nem ampliar vagas nas universidades ou garantir atendimento digno nos hospitais ou fazer reforma agrária. Nenhum acordo vai desmilitarizar polícias, espécie de capitães do mato especializados na tortura e morte de pobres e negros.

No domingo, quando votamos, pensamos no aprofundamento da democracia e na justiça protelada há quinhentos anos. Por isso, enfrentamos corajosamente racistas, homofóbicos, fundamentalistas de todo tipo, senhores escravistas do agronegócio, quadrilha de banqueiros, grande imprensa mafiosa, milicos doidos por um golpe, empresários antinacionais.

Votamos, num domingo histórico, contra o retrocesso e vencemos. Agora, precisamos, urgentemente, consolidar a vitória aprofundando a democracia pela qual lutamos!