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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

QUINHENTOS MIL REAIS

Silvio Prado, professor

Pensei numa história assim. O cara morava lá em baixo, bem depois da última rua do Ipanema e veio à pé até o centro da cidade. Antes de sair de casa, contara o dinheiro que trazia no bolso. Uma nota já envelhecida de dois reais, meia dúzia de moedas de cinquenta centavos e outras tantas moedinhas que achou no bolso da calça que vestira durante a semana passada e, suja, estava no cesto esperando a hora de ir para a máquina de lavar. Se gastasse com a passagem do buzão, corria o risco de nada comer durante o dia.

Depois, outra pequena história veio à cabeça. Essa, um pouco mais dramática. Um dos três filhos de um casal morador da zona rural, podendo ser, por exemplo, do bairro do Pinheirinho, Taubaté, dezoito quilômetros do centro da cidade, depois da ponte do rio Paraíba, Quiririm, à esquerda, estava numa das macas do pronto socorro local desde ontem.

A mãe, agora substituindo o pai, ia passar outra noite com o menino. Providente, comera já um salgado engordurado acompanhado de um refrigerante qualquer, e só. Ansiosa, depois do “jantar” voltou para o lado do filho, olhos semiabertos, incomodado pela dor e pela agulha que espetando seu braço introjetava lentamente pelo corpo a medicação recomendada pelo medico plantonista. Nervos à flor da pele, já discutira duas vezes com a enfermeira e, agora, se despedia do marido. Preocupados, o casal pensava nos outros dois filhos deixados com um dos vizinhos, lá no Pinheirinho. Um não sabia o que dizer ao outro. De olhos na agonia do filho, só restava o silêncio dolorindo a alma.

O homem, muito cuidadosamente, beijou o rosto do menino, abraçou apertadamente a mulher, virou as costas e, cabisbaixo, saiu pelo corredor atulhado de outros doentes. Havia lagrimas nos olhos da mãe e uma revolta desgraçada, quase ódio, devorando o coração do pai.

À pé, dinheiro nenhum no bolso, desde o pronto-socorro localizado nos fundos do privatizado Hospital Regional, ele vazaria a escuridão da noite indo até o distante Pinheirinho passar a noite com os outros dois filhos. Depois, pela manhã, do mesmo jeito, retornaria.

Além dessas duas, outras anônimas tragédias revolveram minha cabeça, algumas imaginárias, outras, a maioria delas, bem reais, todas provocadas pela sensação de nojo que algumas informações conseguem provocar de imediato. É que um amigo, por sinal extremamente ponderado, me disse, no sábado, que durante a semana teve acesso a uma nota fiscal de um serviço contratado por um dos deputados mais votados no estado.

Para enviar santinhos e cédulas de sua campanha apenas para eleitores do Vale do Paraíba, região do litoral e região serrana, o digníssimo senhor vitorioso nas urnas torrou 500 mil reais e mais alguns trocadinhos, com a mesma naturalidade da madame que no final da tarde leva seu animal de estimação para correr e fazer coco num parque público.

Afinal, quantos milhões custam a eleição de um deputado e quantos nadas valem a vida de uma criança miserável de qualquer zona rural?