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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

VIVA ZUMBI! SEMPRE PALMARES!

Silvio Prado, professor

Durante 350 anos de escravidão, não adiantaram os golpes secos e cortantes dos chicotes, corpos amarrados e debruçados no pelourinho. Castigos cruéis, quantos? Orelhas cortadas, pele queimada pela brasa ardente repleta de ódio dos senhores da casa grande.

Nem milhares de mortes nas minas geladas de Ouro Preto, Mariana e Diamantina. Nem o calor tórrido dos canaviais nordestinos estruindo saúde e vidas. Nada adiantou. Não resolveu a fome imposta pelo senhor, as rudes condições de vida nas plantações e trabalhos de rua.

Arrastado da África ao Brasil, para ser apenas mão de obra e depois ter os restos mortais abandonados em qualquer cova rasa, o negro, para o desgosto da elite branca e usurpadora da riqueza que só ele produziu, sobreviveu e marcou profundamente o Brasil e, até hoje, suportando pesada carga de racismo e exclusão, não se entrega e cria horizontes próprios.

Zumbi dos Palmares
De nada adiantaram os castigos públicos e privados. Zumbi não morreu à toa e Palmares não se levantou e resistiu até o último homem por brincadeira. Nem o rebelde negro Cosme, no Maranhão, caçado por Caxias e depois enforcado, morreu inutilmente. Nem mesmo os Lanceiros Negros, centenas deles desarmados e levados à morte pelo mesmo Caxias, no epílogo da farsa da Revolução Farroupilha, no Sul, apesar de traídos, não morreram em vão.

Se dependesse da elite branca, a de ontem e a de hoje, não haveria no país um só negro ou mulato. Todos deveriam, depois da farsa da Abolição, embarcar em outros tumbeiros para serem jogados em qualquer praia da África. Era preciso, segundo a elite, branquear o Brasil para que ele desse certo. Por isso, enquanto se enxotava o negro para os piores lugares, as portas do país se escancararam para uma imigração seletiva.

Como seria um ato impossível expulsá-los com os mesmos métodos usados para arrastá-los até aqui, tentaram então sufoca-lo e até eliminaram milhares deles. Mataram quantos corpos, mas a alma sobreviveu. E ainda matam: 74% dos jovens assassinados no Brasil são negros. A cada três assassinados pela policia militar paulista, dois também são negros.

Porém, tem coisas que, apesar de tantas mortes, estão infalivelmente condenadas à eternidade: a alegria, a rica diversidade dos costumes, a resistência cultural, o grito da alma chamando e proclamando a vida pelo samba, moçambique, jongo, capoeira, Milton Nascimento, Cartola, Paulinho da Viola, Solano Trindade, Lima Barreto, Cruz e Souza, Jorge Amado, Clemente Gomes.

Portanto, estamos vivos e repudiamos tudo o que seja separação. Nosso quilombo é geral, aberto e irrestrito. Cabem o Sul e o Norte, Sudeste, Nordeste, Centro Oeste, Leste. Só não cabe e não aceita os iluminados que, ofuscados pelo verde/azul dos olhos e a falsa transparência da pele, não percebem o quanto são nocivos e são nocivas suas ideias e práticas discriminatórias.

Nosso quilombo geral exige igualdade e ultrapassa a cor da pele. Exige direitos e esmaga privilégios. Exige escola, comida, terra, saúde, casa, segurança, liberdade de expressão e culto, respeito da polícia e soberania para governar. Democracia com letra maiúscula e punição a toda forma de descriminação e racismo.

Queremos e exigimos a demolição imediata do que restou da casa grande e lutamos para tanto. “Não ficamos livres dos acoites nas senzalas para subvivermos na miséria das favelas”.

Não tememos os atuais Domingos Jorge Velho e suas bandeiras criminosas. Não tememos os atuais capitães do mato fantasiados de polícia militar e nem respeito temos pelos que acham esse país uma grande fazenda repleta de indústrias necessitadas de mão de obra escrava.

Por isso, hoje lembramos e saudamos Zumbi, rei de todos os quilombos e Palmares, onde ainda se constroem e afirmam a nossa identidade e a igualdade brasileira.

Finalmente, queremos a Casa Grande no chão, demolida, um verdadeiro amontoado de poeira a ser soprada pelos ventos da história que dispomos a fazer e já estamos fazendo.

Por isso, Viva Zumbi! Sempre Palmares!