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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A VIDA É ASSIM...

Camões Filho*

De repente... a gente começa a descobrir coisas, coisas que nos alegram e outras que nos entristecem. A vida é dura, mas não dura a vida mais do que um átimo. De repente...

Ainda criança de colo percebemos que o mundo não gira ao nosso redor.

Temos que chorar, e muito, para que alguém venha nos dar papinha na boca.

Logo ficamos sabendo que chorar não adianta mais.

Mais tarde, o pior: ficaremos sabendo que não existe almoço de graça.

Um dia, um Natal qualquer, acaba o encanto: ficamos sabendo que Papai Noel não existe. Não existe coelho da Páscoa. Não existem cuca, saci-pererê, mula-sem-cabeça e outras figuras que assombraram nossa infância.

Descobrimos, um dia pela manhã, assim sem querer, que além de nossa casa existem outras coisas, com nomes engraçados, como escola, creche, pré-zinho.

Um dia, nossa mãe vai nos deixar numa casa deeeesssse tamanho e vamos ser cuidados por umas moças diferentes e teremos que conviver com uns moleques peraltas, que vão mexer em nossa comida e bagunçar nosso brinquedo. Primeira lição: essas moças odeiam ser chamadas de tias.

Chegará um momento em que um carro grande, quase do tamanho de um ônibus, virá todo dia cedinho nos pegar e nos levará para aquela casona.

Teremos de comer umas coisas diferentes e não vamos contar nem com um copo de guaraná para acompanhar, só uns sucos esquisitos, que as “tias” falam que é natural e muito saudável.

Um dia vamos sentir que nosso corpo está crescendo e vamos ficar meio esquisitos, parecendo um ET, com braços e pernas enormes.

Ficaremos nervosinhos com qualquer coisa e sairemos dando trombada em tudo que é quina de mesa.

Vamos querer escolher a nossa própria roupa.
As meninas, vaidosas, cuidarão por horas de seus cabelos e vão se achar um lixo.

Os garotos só vão querer tênis de marca e gastarão quilos de gel em seus cabelos.

Nos fins de semana eles e elas vão querer passear no shopping – sem os pais por perto, pelo amor de Deus!

Nascerão os primeiros namoricos.

As meninas descobrirão que os meninos são meio desleixados, não sacam as coisas de primeira, não se lembram de datas e aniversários.

Os meninos ficarão sabendo que mulher é uma coisa complicada.

E um jamais vai querer viver sem o outro.

Nas festinhas de aniversário, o primeiro pedaço de bolo já não será da mãe, mas da namorada ou namorado.

Na formatura da oitava série eles irão dançar até às tantas.

Até às tantas, eles saberão, é até o momento em que o pai se levanta da mesa e diz meio enfastiado: “Vamos embora!”

O ensino médio vem cheio de novidades, novos professores, novos amigos e muitas dúvidas.

A nossa mesada é gasta em cinema, refrigerante e todos aqueles “mc´s” da vida, que a gente adora.

A gente começa a ser incentivado a pensar no vestibular, que profissão queremos ter. E assim, sem mais nem menos, ficamos sabendo que mais alguns anos e teremos que encarar um trampo.

Aquele namorico começa a ficar sério e os namorados começam a frequentar as casas de seus respectivos pais.

A namorada ajuda a lavar a louça do almoço, coisa que nunca sequer fez em sua própria casa.

O namorado já abre a geladeira do sogrão para pegar uma coca.
Na sexta à noite, a família vai comer uma pizza. Os namoradinhos vão juntos.
Está chegando a formatura e começa aquela correria de alugar roupa, corta aqui, aperta ali, arruma cabelo.

Na formatura, os namorados dançarão a valsa de rosto colado – igualzinho seus pais.

E os pais, vendo filho e filha felizes, sorridentes, rodopiando pelo salão, de repente ficarão tristes, taciturnos, imaginando que logo eles estarão prestando vestibular e seguirão suas vidas, longe de casa.

E o velho pai terminará a noite assim, num misto de alegria e tristeza.

E assim a vida continua, trazendo e levando dias bons e outros ruins, momentos inesquecíveis e outros que jamais queremos nos lembrar...

Até que de repente estaremos na virada do ano, vamos olhar para trás e repensar nossas vidas. Vamos nos alegrar com as coisas boas que fizemos ou nos aconteceram. Mas nos entristeceremos ao perceber quanta coisa que gostaríamos de ter feito, mas que o tempo implacável foi deixando para trás...

Feliz Ano Novo para todos!

*Camões Filho é jornalista, escritor e pedagogo, autor do livro “O Canto do Vento” (Netbooks Editora, 11ª edição) e membro titular da Academia Taubateana de Letras.