Páginas

domingo, 21 de dezembro de 2014

DISCÍPULO DE BOLSONARO

Silvio Prado, professor

Bateu-lhe no rosto pela primeira vez. Eles eram ainda namorados. Ela com dezesseis, ele com dezessete anos. Ela chorou solitariamente, ali mesmo nos fundos do salão da igreja. A agressão aconteceu depois da reunião do grupo de jovens. Ninguém viu. Ele, como se nada tivesse acontecido, lhe deu as costas e saiu para conversar com os amigos na porta da igreja.

Na semana seguinte, estavam juntos de novo, como se nenhum tapa tivesse estalado em seu rosto, nos fundos de um salão onde antes dezenas de jovens haviam lido trechos bíblicos e depois rezado. Além do respeito por si mesma, ela perdera também duas amigas, as quais contara o ocorrido suplicando que nada dissessem a ninguém. Revoltadas, as amigas não se calaram e todo mundo passou a saber da rotina de violências do casal.

Com o tempo, portanto, os tapas ficaram comuns e, por inúmeras vezes e por qualquer motivo, o rapaz, antes apenas namorado, mas agora seu marido e pai de seus dois filhos, a agredia. Pelos filhos, pela família – e também pelo medo terrível da reação do marido - ela resistia à ideia de separação. “Destruir minha família, jamais!”, dizia pra si mesma ou para quem sabia de seu drama.

Porém, numa certa noite de uma segunda-feira qualquer, ele não lhe deu apenas um tapa, mas uma surra verdadeira. O monstro que o habita parece ter assumido totalmente a personalidade daquele que se dizia seu marido e, jurava até pelo diabo, sentir pela mulher um amor que nunca teve por ninguém. Os dois filhos, um de três e outro de cinco anos, traumatizados pela violência do pai e os gritos da mãe, saíram pela vizinhança também aos gritos. Uma vizinha, corajosamente, interviu. Quase apanhou também. Seu marido veio atrás e, providencialmente, encostou uma arma bem na cara do agressor.

A coisa não parou por ali. No dia seguinte, as agredidas foram à Delegacia da Mulher. Pela noite, quando o homem violento tomou conhecimento do registro da ocorrência, ficou ainda mais enfurecido e voltou para casa disposto a tudo. Mas nada pode fazer além de assustar a vizinhança com gritos e palavrões toda vez que lia, numa folha de caderno, certamente arrancada as pressas, o bilhete deixado sobre a mesa da cozinha: “Chega: vou embora. Não sou carne de açougue, não nasci pra isso!”

Depois, por várias vezes o homem foi visto rondando a casa dos pais da ex-mulher, onde temporariamente ela foi se abrigar, e também vagando nas imediações de seu trabalho. Ela, com uma coragem que não possuía antes, já o havia enfrentado umas duas vezes. O caso deu policia e deu justiça seguidamente. Mas a “fera” nunca que encontrou sossego e nem temor.

Dois anos depois, querendo refazer a vida afetiva, ela apareceu em público com um namorado. De imediato, o ex lhe telefonou dizendo que “as coisas não vão ficar assim, não”. Destravando a língua, ela o mandou para um lugar bem conhecido. Apesar de sua determinação e coragem, a mulher ainda hoje teme o que possa acontecer não só com ela, mas também com os dois meninos.

Mas ele continua como sempre, machista e prometendo violências. Recentemente, quando o deputado Jair Bolsonaro, na tribuna da câmara, em Brasília, encheu o peito e falou besteiras prometendo estuprar Maria do Rosário, também deputada federal, o desregrado e violento ex ouviu com certo prazer o discurso animalesco que escandalizou tanta gente. E diante de uma solitária garrafa de cerveja e sob o silêncio de uma sala iluminada apenas pelos clarões vindos da tevê, ele levantou o copo e fez um solene brinde ao estúpido deputado.