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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

BERTOLT BRECHT E CHARLIE HEBDO

Silvio Prado, professor

Eu tenho o direito de dizer o que penso, mas preciso pensar antes no que vou dizer. Eu tenho liberdade para exercer meu direito de opinião, desde que ele não violente princípios sagrados para o outro.

Eu tenho o direito de não crer em Deus, mas não tenho o direito de ferir o outro ridicularizando o Deus que esse outro, lá nas profundezas de sua intimidade, cultua, respeita e por ele pauta a sua vida.

Meus direitos são amplos, mas eles tem limites. Porém, se meus direitos um dia ultrapassarem os limites estabelecidos, cabe a justiça ter senso de colocar freios nos meus direitos que se desejam ilimitados e capazes de chocar, ferir, humilhar.

Caso a justiça, repleta de equívocos e interesses muitas vezes descarados, reconheça que meus direitos podem ir além do que me foi determinado pelo bom senso e pela necessidade de conviver pacificamente com a diferença, ficam escancaradas portas e janelas para soluções que apenas vão criar retrocessos e referendar posturas que animalizam as relações humanas.

Ninguém pode ter mais direitos do que já tem ou torná-los elásticos e provocando a contração do direito alheio.

Por isso, e por tantas outras coisas não colocadas aqui, vou repetir uma das frases mais contundentes e famosas de Bertolt Brecht: “DO RIO QUE TUDO ARRASTA, DIZ-SE QUE É VIOLENTO. MAS NINGUÉM CHAMA VIOLENTAS ÀS MARGENS QUE O COMPRIMEM”.

Diante do atentado em Paris, na semana passada, não dá para não pensar nessa famosa e esclarecedora afirmação do dramaturgo alemão. Está claro para todo mundo que violência e morte não são saídas, nem solucionam qualquer contenda humana e nem devem servir como resposta ao exercício do direito de livre expressão, mesmo que algumas vezes exacerbado.

Mas também não dá para ignorar certas margens que comprimem rios e os obrigam a ser violentos. Traduzindo em palavras concretas e exemplos reais: não dá para ignorar as margens do imperialismo norte-americano e dos interesses capitalistas em geral, brutais e mortíferos em toda parte, comprimindo impiedosamente rios e os tornando ainda mais violentos. Enfim, não dá para condenar a violência impetuosa das águas sem antes condenar a violência estreitadora das margens do rio.