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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ESPERANDO A MORTE,
NO VIADUTO SÃO PEDRO

Silvio Prado, professor

Vi hoje (5) uma mulher, que calculo ter mais de cinquenta anos, numa clara tentativa de suicídio. Ela, sobre o viaduto do Alto de São Pedro, ficou quase meia hora mirando o intenso trânsito de veículos que tomava as pistas da Via Dutra.

Descendo do Alto do Cristo, mesmo ainda um tanto longe, deu para ver a primeira tentativa da mulher de levantar sua pesada perna – a esquerda – sobre a “grade de ferro” que oferece segurança aos que passam diariamente pelo local. Felizmente a altura da grade não permitiu que ela assim o fizesse.

Depois, ainda deu para ver uma segunda tentativa, agora com a perna direita. Não conseguiu. Preocupado, acelerei os passos, cheguei até a mesma e tentei iniciar uma conversa. Foi o mesmo que tomar a inciativa de conversar com um poste. Minha presença foi friamente ignorada. Os olhos dela, fixos na direção da estrada, parece que já estavam decididos pelo pior. Eu não seria ouvido por ela nem que colasse aos seus ouvidos um potente megafone.

Sem outra alternativa, de imediato peguei o celular e liguei para o famoso 190 da Policia Militar, pois entendi que somente a ação de um policial ou de alguém do Corpo de Bombeiros pudesse evitar o que a sofrida senhora premeditava. Enquanto falava com a polícia, não tirava os olhos dela. Porém, como fazer para que um policial, na distante São José dos Campos, entendesse que o viaduto de São Pedro, onde uma senhora dava demonstração de querer se atirar sobre os veículos que transitavam pela Via Dutra, fica num bairro chamado Alto de São Pedro, Taubaté, quase debaixo de uma magnifica paineira, em frente à padaria Paraíso? Pelo menos três minutos gastei nessa prestação de informações necessárias para o deslocamento de uma viatura ou de policiais da Atividade Delegada.

Uma senhora, bastante humilde, passando pelo local viu minha preocupação e veio me dizer ser vizinha da estranha que ensaiava atirar-se entre os carros da Via Dutra. O nome da mulher, ela não me falou, mas fiquei sabendo que a mesma mora no Jardim América, sofre de depressão devido a perda do marido, mora praticamente sozinha e é vista como louca pela vizinhança.

Passados pelo menos quinze minutos, felizmente a estranhíssima senhora desistiu da ideia de se jogar das alturas onde estava (ou adiou para outro dia o que não conseguiu fazer hoje?),saiu de sua posição rígida, deixou o viaduto e caminhou na direção da igreja de São João, não muito longe dali. Um tanto obesa e andando com dificuldades, passou por mim. Os olhos, duas pedras mortas cravadas no rosto, não tinham expressão nenhuma. Trata-se certamente de uma pessoa que precisa receber, o mais urgente possível, um tratamento psicológico especial.

Como é pobre, deveria ser atendida pelo Estado, o que significa que não terá atendimento nenhum, pois, infelizmente, ela vive numa cidade desadministrada pelo tucano Ortiz Junior e num estado desadministrado por outro tucano, o graúdo e penoso Geraldo Alckmin, onde a saúde publica funciona tão dignamente como um necrotério.

Duas coisas tristíssimas observei no pouco tempo que estive ali, preocupado com o destino que a infeliz senhora pretendia alcançar. Primeiramente, a indiferença geral da população. Dezenas de pessoas viram a cena e a tentativa de uma pessoa flagrantemente procurando um meio eficaz de matar-se. No entanto, apenas a humilde senhora que me deu informações parou por uns três minutos no local, tempo suficiente para me dizer o pouco sobre ela e que já relatei aqui.

Depois, para confirmar o tamanho do caos em que se encontra o serviço público estadual paulista, a demonstração de inoperância e ineficiência do tal 190. De nada serviram as informações que dei ao policial que me atendeu, pois, em quase vinte minutos de espera, viatura alguma apareceu para atender aquela ocorrência. Para que não parecesse trote, quando a mulher foi embora liguei novamente para o 190 e avisei que não precisava mais da presença da polícia.

Concluindo, não sei exatamente se cabe à polícia o papel de evitar que pessoas desiquilibradas se atirem das alturas de um viaduto ou de qualquer outro lugar. Mesmo que não seja essa uma de suas funções, o Estado mais rico do país prova mais uma vez que não consegue atender reivindicações básicas de sua população quando pessoas, completamente despersonalizadas, destruídas emocionalmente, optam pela morte em lugares públicos.

Ou seguem pela vida, carregando a morte estampada no rosto, sem nenhuma atenção e cuidado da imensa máquina que suga impiedosamente tudo e todos, sempre em beneficio de uma minoria criminosamente privilegiada.