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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

COISAS DE NOSSOS VELHOS CARNAVAIS

Camões Filho*

Estamos vivendo mais um Carnaval. Há 40, 50 anos, a festa seria chamada pela imprensa – jornais e rádios, pois televisão era ainda uma coisa incipiente - de “tríduo momesco” e os foliões ao invés de axé, saudariam uns aos outros com expressões como “Evoé”, “Alvíssaras”, coisas que os jovens de hoje nem têm ideia de que se trata.

E para falar de Carnaval, vou relembrar o meu querido e saudoso amigo Santana.

Somente quem viveu os anos sessenta e setenta do século passado pode aquilatar a importância daquele período. Estávamos sob um regime de exceção, mas ao mesmo tempo havia na música, no cinema, na imprensa – com o surgimento do Pasquim – uma explosão de criatividade como nunca mais se viu. Período de grandes festivais, do cinema novo, de Glauber Rocha com uma câmera na mão e milhões de ideias na cabeça.

Eu delirava com tudo aquilo. Mesmo sem completar dezoito anos, já estava participando de movimentos políticos, daquelas reuniões às escondidas, lembrando o clima daquela canção do Chico Buarque, “cuidado! / o homem vem aí!” Recentemente um amigo dessa época lembrava-se de uma reunião clandestina que a gente participou e à qual ele fora como convidado meu, em um casarão antigo, sombrio, com a presença de Ulysses Guimarães. A gente subia uma escadaria de madeira, que rangia fantasmagoricamente a cada passo. No final, uma salinha e lá estava, solícito, o futuro Sr. Diretas.

Eu participei de uma das primeiras reuniões para fundação do MDB, o Manda Brasa, na Faculdade de Filosofia, e entrei para o partido pelas mãos do Santana, que era do Morro, mas que fez fama como mestre de bateria da Escola de Samba Embaixada da Vila São José. Eu morava na Rua Professor Bernardino Querido e foi a poucos passos de casa, no Bar do Português, que um dia fui apresentado, exatamente pelo Santana, a um jovem recém chegado a Taubaté, que viera para estudar na Faculdade de Direito: Ary Kara José.

Isso mesmo, meu amigo Santana, que a gente respeitosamente chamava de Neguinho – e que era amado e admirado pelo povo da Vila São José. Ele tratava a todos, de criança a idoso, com um carinho sem igual.

Santana foi um gênio multidisciplinar. Mesmo praticamente cego de um olho, jogava o fino da bola. Hoje não teria Neymar, Ganso, Messi para ele.
No Carnaval, nos grandes e inesquecíveis carnavais de Taubaté, também era insuperável. Insuperável mesmo. Ganhou o título de “Rei do Apito”, como o melhor mestre de bateria de escola de samba da cidade. Pois no ano seguinte surpreendeu todo mundo ao pisar na avenida de fraque, cartola e batuta nas mãos, conduzindo sua bateria com um verdadeiro maestro. Santana era o Pelé e o Pinxinguinha da Vila São José.

Ninguém jamais marcou ou organizou uma quadrilha como ele. Que saudade das festas juninas da Vila São José, na casa da família do saudoso Salgado, com o Santana conduzindo os casais pelas ruas do bairro. Dos intermináveis ensaios, que acabavam sempre com a sua ordem: “Agora, meia hora de ribimba”. Ou seja, os casais de namorado teriam trinta minutos para dançar, ao som de boleros e canções do pessoal da Jovem Guarda.

Era um dia qualquer do ano de 1973. Santana vinha da cidade, de ônibus. Ao descer, desequilibrou-se na calçada, caiu e bateu a cabeça. Morreu ali aquele que foi amigo dos velhos e das crianças, dos ardorosos fãs do samba e carnaval, bem como dos religiosos. Pois assim foi Santana, um mulato humilde e que teve enterro de rei. Mas para nós, seus amigos, ele não morreu, ele está aí pelas ruas do bairro, encabulando-se com tudo isso que estamos falando dele.

Chovia e muito. Parecia que a natureza chorava a morte de Santana, o Apito de Ouro de nossos carnavais. O povo aglomerava-se, todos queriam levar o último adeus àquele que em nossos corações nunca morrerá. A Escola de Samba, com todo o respeito, compareceu. Um triste acorde cortou o ar. Gemia a cuíca, improvisavam-se os batuques que dantes eram comandados por Santana.

O calor era insuportável, mas lá estavam todos, pesarosos no despedir. As crianças, que tanto Santana amou - e tanto amaram Santana - seguiam com as bandeiras de todas as Escolas de Samba de Taubaté. A da Embaixada da Vila São José cobria o caixão de seu líder. E respeitou-se a vontade daquele que desaparecia: seu corpo deu uma longa e triste volta pelo bairro, acompanhado por um aglomerado de pessoas que se perdia ao longo das empoeiradas ruas. Era o último adeus de Santana. Ele, que amou aquelas ruas, aquela vila, dava seu derradeiro passeio pela Vila São José, junto com seu povo, sua gente, sua escola de samba, seus amigos de papos, de futebol, de carnaval, de viver.

E a emoção foi maior quando chegou-se ao campo do Nova América, time pelo qual Santana dedicou seu valoroso futebol. E num ímpeto visionário vi Santana marcar um gol, sacudir a torcida, balançar a rede. Mas não. Ele estava inerte, morto. Um torcedor encaminhou-se para a bola no meio do gramado vazio, como se esperasse pelo inicio de um jogo que jamais começaria. Lágrimas e chuva misturavam-se com o gramado, quando tal torcedor pegou a bola e a colocou no caixão.

E o féretro seguiu. Ao aproximar-se da última morada, nas proximidades do Cemitério da Venerável Ordem Terceira, a escola começou a tocar e cantar a Valsa da Despedida. Era o adeus a Santana, amigo de todos.

A saudade já tomava conta dos corações de seus amigos. Amigos das quadrilhas, do futebol, do carnaval, das festas juninas tão bem organizadas por ele. Saudade de tudo, pois de tudo ele participava com real destaque.

Mas não. Calara-se para sempre o apito de ouro. Morrera Santana e com ele morria um pouco de todos nós.

Mas com certeza ele não quer ver o samba morrer e podemos sentir no ar a sua vibração, a sua convocação: vamos esticar o couro dos tamborins. Vamos reunir o pessoal, marcar ensaios, que o carnaval está aí. O Santaninha não morreu. Ele está em nossos corações, batendo papo, traçando planos. Que as costureiras caprichem nas fantasias. Que as alas decorem as músicas. Vamos sacudir a avenida. Em honra de Santana, o rei do apito, o Apito de Ouro.

*Camões Filho é jornalista, escritor e pedagogo. Membro titular da Academia Taubateana de Letras.