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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

PORQUE TAUBATÉ DEVE
HOMENAGEAR IRANI LIMA

Antonio Barbosa Filho, jornalista

Conheço Irani Lima há algumas décadas, desde que ele foi operador de som na Rádio Difusora, quando eu era repórter do “Show das Sete”, programa que tinha a maior audiência na cidade, produzido e apresentado pelo grande comunicador J. Bonani, em meados dos anos 70. Ficamos amigos ali (em rádio, geralmente, locutores e repórteres mantém uma certa distância dos operadores e técnicos, mas na Difusora isso não acontecia, era uma emissora muito democrática, presidida pelo saudoso Emílio Amadei Beringhs, cuja sala estava sempre aberta para todos nós, e gerenciada pelo mestre Silva Neto, cujas portas tampouco vi fechadas jamais). E onde eu trabalhei, sempre procurei ter amizade com aqueles que não colocam suas vozes ou imagens no ar, mas dos quais dependemos totalmente para colocarmos a nossa, dos jornalistas/radialistas/locutores de TV.

Em 1975, fui um dos que mais estimularam Irani a escrever. Ele diz isso no histórico livro comemorativo dos 35 anos do Diário de Taubaté, e assim se expressa em todas as ocasiões em que lhe perguntam sobre o início de sua carreira. Eu me orgulho muito disso.

Depois passamos muitos anos distantes, geograficamente. Trabalhei na Bahia, em São Paulo, em muitas cidades de nossa região, e perdi o contato com meu amigo Irani. Ao mesmo tempo, ele crescia na profissão que eu ajudei a despertar nele, e eu vibrava com seus sucessos. Nosso amigo comum José Luis da Silva, dos tempos da Difusora, o levou para Pindamonhangaba, depois dirigiu rádios em Cruzeiro e outras cidades, publicou na Folha de S. Paulo, no ValeParaibano, foi editor de política do Jornal do Vale, de São José dos Campos, foi assessor do então deputado estadual Geraldo Alckmin, dirigiu a centenária Tribuna do Norte, de Pinda, lecionou “Ética” na Unitau. Enfim, Irani fez coisas que todo jornalista do interior gostaria de fazer e com um detalhe fundamental: tudo honestamente, todos os cargos obtidos por mérito, sem negociar suas opiniões ou corromper-se de qualquer maneira.

Para quem não sabe, corromper-se no Jornalismo é muito fácil. Basta agradar o patrão em tudo, despir-se de qualquer princípio ético, e cumprir o que lhe mandam. Nada demais, se não fosse o fato de que nem sempre a posição dos donos da mídia coincide com a missão sagrada do Jornalista, que é servir ao seu público leitor/ouvinte/telespectador, dando-lhe a Verdade possível. Vejam que hoje, por exemplo, há muitos bons jornalistas na TV Globo. Mas nenhum deles, embora sabendo dos fatos, pode divulgar que o governo Fernando Henrique é citado pelos delatores da tal “Operação Lava-Jato”, da Polícia Federal, que investiga corrupção na Petrobrás. É ordem interna da Globo: nada de FHC, tudo contra Lula, Dilma e PT. E nenhum jornalista pediu demissão em protesto por esta censura!

Há poucos dias um jornalista inglês famoso pediu demissão por isso: seu jornal o proibira de publicar fatos graves que ele havia apurado. Na Globo mesmo, há alguns anos, os colegas Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, ambos repórteres especiais (topo de carreira) e correspondentes internacionais, recusaram-se a ficar numa empresa que escondia fatos negativos contra José Serra e outros tucanos.

Irani é assim: não tem preço. Não tem rabo-preso. E por isso os corruptos de Taubaté o odeiam. Já lhe moveram e movem vários processos. Tentam atribular sua vida de aposentado, infartado e chefe de uma grande família. Querem destruí-lo pela pressão. Quando ele estava internado pelo infarto (ou infarte, ambas as formas são corretas), li pessoas que se dizem cristãs, na internet, desejando sua morte na linguagem mais nojenta possível. Que gente espiritualmente pobre!

O crime de Irani, prá essa gente desumana e emburrecida, é ter denunciado, com documentos e provas, a corrupção dos Ortizes, pai e filho, no escândalo da FDE e na eleição de 2012 em Taubaté. Enquanto a maioria silenciava e até aplaudia a campanha milionária, feita com dinheiro sujo (é o que consta nos processos, e por isso pai e filho continuam com seus bens bloqueados, e o prefeito foi cassado em duas instâncias), Irani publicava no seu blog os documentos todos, desde a denúncia até a sentença final.

O que mais poderia fazer um Jornalista honesto? Esconder dos seus leitores aqueles fatos comprovados por documentos, assinados por promotores públicos e juízes? Ir atrás dos envolvidos e pedir-lhes uma grana em troca do silêncio? Nada disso. Irani cumpriu o seu dever de Jornalista, que é o de servir à comunidade onde vive, denunciando corajosamente o que sabia de errado, de criminoso. O povo brasileiro é contra a corrupção, faz até passeatas contra os ladrões do dinheiro público. Como este povo poderia ser traído por Irani, ou por qualquer jornalista honesto?

Hoje Irani responde a um processo movido pela ex-juíza eleitoral, dra. Sueli Zeraik de Oliveira Armani. Ela me processa também, pelas mesmas razões: nós criticamos a sua demora em julgar o processo contra Ortiz Júnior. Mais de 40 cidades de todo o Brasil tiveram processos semelhantes, os prefeitos foram cassados e houve novas eleições durante aqueles oito meses que a dra. Sueli levou para analisar o caso de Ortiz - que ela acabou por cassar.

A acusação contra o Irani é absurda, é apenas uma tentativa de intimidá-lo, pois crime, ele não cometeu. Sua liberdade de escrever o que escreveu, de criticar como criticou, é garantida pela Constituição. Não houve a menor intenção de ofender moralmente a juíza, e ela sabe disso. Como autoridade e funcionária pública, ela está exposta a críticas, ainda que não goste dela - quem gosta? Daí a transformar esse natural sentimento de mágoa pessoal em “crime” há uma enorme distância.

Tenho o dever de proclamar minha profunda admiração pelo meu colega e amigo Irani Gomes de Lima. Sem querer, sem buscar, ele se transformou num exemplo do Jornalismo digno em Taubaté e no Vale do Paraíba. Na verdade, temos recebido solidariedade de todo o País, pois a judicialização da censura tem ocorrido em toda parte.

A Taubaté em que eu nasci, e da qual me orgulho muito, deve aplaudir em pé o jornalista Irani Gomes de Lima. Mesmo que o prefeito, mediante os artifícios que a fortuna permite a certos réus permita ao Juninho Ortiz concluir seu mandato, o trabalho de Irani Lima não terá sido em vão. Nem seu sofrimento pessoal, nem seu infarto. E a cidade precisa muito de sua independência, de sua coragem.

Em Taubaté existe uma Praça da Imprensa. Eu tenho certeza de que, mais cedo ou mais tarde, Irani terá seu busto ali exibido como um dos maiores defensores da Honestidade na Política e na Comunicação Social, em toda nossa longa História.

Só espero que os aplausos venham enquanto ele está vivo, lúcido e atuante.

NOTA A REDAÇÃO: Ainda comovido pela demonstração de carinho do companheiro e amigo Barbosa Filho (na prática, meu primeiro professor de jornalismo, embora seja uns 10 anos mais jovem que eu), gostaria de recordar que o primeiro livro de jornalismo que li, "O papel da imprensa", do veterano jornalista Alberto Dines, foi um presente de Barbosa Filho, que me emprestou livros sobre "lead", como elaborar uma manchete e temas afins. Quanto ao "busto", espero que ele fique para bem mais tarde, se de fato acontecer...