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terça-feira, 31 de março de 2015

BÔNUS: A ENGANAÇÃO CONTINUA

Silvio Prado, professor

Fiz o presente texto no tempo em que uma senhora chamada Maria Helena foi secretária da educação em São Paulo. Não sei e nem quero saber por onde anda essa senhora, que ajudou em muito a esculachar com o professor e esculhambar ainda mais o ensino público estadual. Infelizmente, a política tucana neoliberal recheada de fundamentos meritocráticos ainda vigora por aqui. Pior ainda: conseguiu contaminar a coração e a mente de muitos professores, que pautam sua vida profissional pelo bônus e nunca por uma luta sistemática por salários que sejam verdadeiros e justos. Que tristeza! Hoje, enquanto a maior parte da categoria enfrenta e sustenta uma greve histórica, tem professor priorizando o bônus e sonhando com uma impossível montanha de dinheiro a qualquer momento estufando suas contas. O texto abaixo é uma gozação em formato de cordel, infelizmente ainda atual.

Um professor, outro dia
Teve um sonho arretado
Onde recebeu um bônus 
O maior de todo o estado,
Causou inveja em banqueiro
E quase foi sequestrado.
Foi tanta a felicidade 
Desse professor sortudo
Que jatinho até comprou
Com aeroporto e tudo
Passando o resto da vida
Brincando de jogar ludo.
Ele não acreditou
Quando viu tanto dinheiro
Quase teve um piripaque 
E tremeu o dia inteiro 
Teve até dor de barriga
E quase morreu no banheiro.
Eram milhões de reais
Na sua conta bancária, 
Um valor inusitado
Pago pela secretária
Uma tal Maria Helena
Senhora bem perdulária.
O gerente de seu banco
Lhe ofereceu sociedade
E ele se fez acionista
Ficando muito à vontade
Ganhando a vida com juros
Dando aula por vaidade.
O professor comprou carro
Casa no campo também
Fez pesca submarina
E montou logo um harém 
Com mulheres escolhidas 
Em Paris e muito além.
O fato é que o bônus
Era sim muito dinheiro
Uma fartura de grana
Enchendo quartos inteiros
Para gastar tal fortuna 
Só mesmo um aventureiro.
Depois de ter um harém
Casa de campo e de praia
O professor se cansou 
De viver nessa gandaia
E mesmo podre de rico
Voltou à antiga laia.
Quando retornou a escola
Que surpresa interessante
Reencontrou os companheiros
Do magistério estressante
Agora devido ao bônus
Riquíssimos e elegantes.
Que coisa maravilhosa
Lecionar daquele jeito 
Professor cheio de bens
Todo pleno e satisfeito
E a escola parecendo 
Um segundo lar perfeito.
Todos de bem com a vida,
Bolso estufado de grana
Passeios e muitas compras
Na Daslu toda semana
Saunas, cremes, massagistas..
Gente que vida bacana!
Mas como era um sonho
Coisa que nunca demora
O telefone indiscreto 
Exato na melhor hora
Devolveu o professor
Ao mundo triste de agora.
Do outro lado da linha
Uma voz já conhecida
Cobrava mais uma vez
Outra prestação vencida
Do fogão de duas bocas
Comprado na loja Midas.
Depois do telefonema
A campainha, que peste,
Anunciou que no portão
Tinha um cara da SABESP
Avisando que sua água
Seria cortada sem teste.
Ora, não bastava a luz
Há mais de mês atrasada
Agora então era a água
Podendo até ser cortada,
Veja só quanta loucura
Que vida mais desgraçada!
E o mesmo professor
Que no sonho era sortudo
Viu que na vida real
Não tinha nem um canudo,
Apenas promessas de bônus
Cercado de nada em tudo.
E ficando tão irritado
Com aquela situação 
Pensou rasgar seu diploma
E mudar de profissão
Mas depois pensando bem
Não deixou a educação.
E agora de bolso vazio
Mas sem bancar o otário
Aprendeu que o melhor
É trilhar o itinerário 
Das lutas que vão lhe dar
Um bom e justo salário
Que bônus coisa nenhuma!
Disse o professor zangado.
O que eu preciso é salário
E ser mais valorizado.
Chega de bancar o otário
Pra esse governo safado!