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terça-feira, 17 de março de 2015

DEMONIZAÇÃO

Silvio Prado, professor

Ele tinha sede por uma dessas pessoas que ainda usam camisetas vermelhas, um boton ou aquela “maldita estrelinha do PT” bem no lado esquerdo do peito. Trabalhando no caixa da lanchonete, frequentadíssima , no centro de São Paulo, aos garçons com quem tinha maior afinidade e confiança um dia chegara a pedir que atendessem diferentemente esse tipo de pessoa.

Porém, mesmo sendo proprietário e contratando quem bem entendesse, entre os seus funcionários havia um lá que personificava o seu ódio. Ele nunca se perdoou por tê-lo um dia contratado. Que burrice fui fazer contratando essa coisa, quase sempre dizia. Baiano, garçom que com ele trabalhava por uns dez anos, não o incomodava apenas pelo sotaque carregado que os tempos de São Paulo não tinham ainda conseguido suavizar.

Não bastasse o sotaque, o desgraçado nordestino, e ainda por cima mulato, vinha algumas vezes ao trabalho com alguma coisa que lembrava “a quadrilha que estava no poder”. Por isso, um desentendimento bobo com um freguês que além daquela vez nunca entrara no estabelecimento, virou motivo para a sua dispensa.

De tudo foi feito pelo patrão paulistano para que os direitos do garçom fossem jogados direto na lixeira. Mas o Baiano - um grande filho da puta - segundo o dono da lanchonete, reagiu e saiu do trabalho sem perder um centavo a que tinha direito.

Mas o desejo daquele dono de lanchonete, antipetista ao extremo, não era algo isolado. Alguns comerciantes da região tinham a mesma sede que o atormentava e, se pudessem, proibiriam a entrada de gente declaradamente petista em seus estabelecimentos. Ora, já não havia nos estabelecimento da cidade placas proibindo pessoas que entrassem com cães e gatos? Ou então entrassem sem camisa? Pois é!

A partir de agora, por que não uma placa proibindo a entrada de pessoas com qualquer coisa ou símbolos que lembrem essa máfia que está no poder, disse o imponente ex-patrão do Baiano, durante um bate papo que tivera com vários comerciantes da sua região no final de semana que antecedeu a marcha dos duzentos mil pela Paulista.

Muitos riram de ideia tão absurda, mas alguns, pensativos e sem sorriso algum no rosto, balançaram a cabeça concordando.