Páginas

domingo, 8 de março de 2015

MULHERES SINGULARES

Silvio Prado, professor

Nos livros didáticos de história do Brasil sobram personagens masculinos e faltam mulheres. Só muito recentemente começaram a frequentar suas páginas personagens como Chiquinha Gonzaga, Olga Benário Prestes, Chica da Silva, por exemplo. Antes das mulheres vindas das camadas populares, geralmente apareciam nos livros didáticos apenas personagens femininas do setor dominante da sociedade brasileira, como a princesa Isabel e a imperatriz Leopoldina, mais como coadjuvantes do que personagens de peso nos eventos protagonizados também por elas.

Como nossa história nunca foi contada do ponto de vista da população, nos livros didáticos a história das mulheres, como a dos negros, índios e pobres em geral, sempre foi um relato inexistente. Por isso, quem folhear obras usadas em nossas escolas não encontrará nelas sequer uma palavra sobre mulheres como Nísia Floresta, nordestina que no século XIX colocou sua capacidade literária para combater a escravidão, defender os índios e a educação, principalmente a da mulher. Pensando na emancipação feminina, Nísia Floresta fundou um colégio só para meninas e tornou-se a primeira a defender publicamente as ideias de igualdade de gênero no país. No entanto, Nísia, como tantas outras lutadoras, é uma desaparecida de nossa história.

Nos últimos anos, um e outro livro didático tem citado, quase superficialmente, o nome de Patrícia Galvão, também conhecida como Pagu, lindíssima mulher que provocou dores de cabeça nos conservadores do início do século XX. Pagu escreveu poesia, crônicas, dirigiu teatro e fez militância política. Comunista assumida, acabou presa e torturada durante o Estado Novo de Getulio Vargas. Mas cinco anos de prisão não serviram para calar sua voz. Sobre ela, há inúmeros livros e também um filme longa metragem, dificilmente encontrado nas locadoras.

Mesmo com tantos registros, essa mulher que resistiu e lutou por uma sociedade brasileira democrática permanece tão escondida quanto as anarquistas Teresa Fabri e Teresa Carine, que em 1906, em São Paulo, iniciaram entre as costureiras um ruidoso movimento pela redução da jornada de trabalho para oito horas diárias.

A história, quase sempre escrita do ponto de vista masculino, passa por cima de nomes e personalidades femininas que sustentaram lutas duríssimas. No Rio Grande do Norte, em 1927, uma lei eleitoral bastante singular permitiu que uma mulher negra, Alzira Soriano de Souza, fosse a primeira prefeita eleita da América Latina.
Antes, no Rio de Janeiro, em 1910, mesmo ano em que explodiu a revolta da Chibata, uma mulher chamada Leolinda de Figueiredo Daltro, defensora das mulheres e dos índios, se atreveu a fundar o Partido Republicano Feminino, eliminando qualquer tipo de intermediário masculino na representação política da mulher. Onde saber mais sobre o atrevimento dessas duas pessoas singulares?

É impossível enumerar todas as mulheres que ajudaram o Brasil a superar formas de preconceito e exclusão, a derrubar ditaduras e criar perspectivas seguras para um país democrático. Se focarmos a resistência à ditadura militar, deparamos com inúmeras mulheres que resistiram e foram tragadas pela violência criminosa dos órgãos de repressão.

Ranusia Alves Rodrigues, Maria Augusta Thomaz, Esmeraldina Carvalho Cunha são apenas três nomes entre os muitos que opuseram resistência aos planos macabros dos militares. Nesse momento, o que se espera é que o relatório final da Comissão da Verdade abra caminhos para que se faça justiça a todas as mulheres perseguidas, torturadas, mortas e desaparecidas sob a truculência militar. Resgatar e revelar suas histórias são compromissos urgentes da sociedade brasileira.

Nunca é demais lembrar que no país do futebol já houve leis proibindo mulher de praticá-lo. Não só o futebol, mas futebol de salão e de praia, halterofilismo e beisebol, como quiseram os militares em 1965. Getulio Vargas, em 1941, precedeu os militares nessa burrice proibindo inúmeras atividades esportivas como incompatíveis com as condições da mulher. Não foi sem luta que essas proibições foram superadas. Hoje, a presença das mulheres brasileiras nas mais diferentes modalidades esportivas garante ao país destaque internacional no cenário esportivo.

Proibida também por ordem do chanceler Osvaldo Aranha foi a presença de mulheres no Ministério das Relações Exteriores, proibição só quebrada pela ação na justiça de uma mulher, Sandra Maria Cordeiro Melo, em 1953. No ano seguinte, motivado pelo exemplo de Sandra, o Congresso aprovou lei abrindo para as mulheres as portas da carreira diplomática.

Mesmo ocultas e desaparecidas dos livros didáticos, dos enredos de novelas e seriados, documentários e até mesmo do cinema nacional, as mulheres estiveram - e sempre estarão - presentes nos momentos decisivos da história do país. Para quem deseja o Brasil sem memória não deve ser mesmo interessante relatar histórias como a de Margarida Maria Alves, líder sindical dos canavieiros em Pernambuco, assassinada na década de 1980 por ordem dos donos de engenhos daquele estado. A capacidade de Margarida de organizar uma categoria deu muita dor de cabeça para os poderosos pernambucanos. Para gente tão poderosa, a solução foi muito simples: contratar jagunços e calar sua voz com meia dúzia de balas.

A democracia brasileira sempre terá um ar de farsa enquanto a história das mulheres brasileiras não forem devidamente resgatadas e contadas em todos os níveis. Não haverá democracia verdadeira enquanto uma mulher fabulosa como Luisa Naihn não tiver sua trajetória exposta aos brasileiros. Luisa, negra liberta, foi mãe do abolicionista Luis Gama, um incomparável lutador pela abolição. Ninguém sabe até hoje o paradeiro de Luisa. Sabe-se apenas que participou de muitas revoltas pelo fim da escravidão e que foi personagem importantíssima na grande rebelião de escravos de 1835, na Bahia, a conhecida Revolta dos Malês.

Enfim, as lutas que forjaram direitos e deram ao país alguma maturidade democrática não foram obras exclusivamente masculinas. As mulheres, de forma tão decidida quanto os homens, também fizeram a sua parte, igualmente com muito sonho, sangue e também vidas. Portanto, neste Dia Internacional da Mulher é preciso chamar a atenção sobre o anonimato proposital em que foram colocadas as incontáveis lutadoras brasileiras.

A festa que se faz hoje tem raízes na vida tensa, atribulada, sofrida e muitas vezes sem perspectivas dessas lutadoras, tanto as do passado como as do presente. Por isso, mais do que flores elas merecem nossa reverência e eterna lembrança. Elas sempre servirão de exemplo. E todo exemplo de dedicação e luta pela democracia precisa ser lembrado, ganhar páginas nos livros didáticos, virar tema ou personagem de filmes, teatro, cinema, novela. Enfim, para que o país encontre caminhos e soluções mais seguras para seu aprofundamento democrático, as grandes lutadoras sociais brasileiras precisam ser tiradas do anonimato.