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terça-feira, 3 de março de 2015

O PILEQUE DO VELHINHO DE TAUBATÉ

Caro senhor Irani,

Desde o ano passado não vos escrevo, mas acompanho vosso blogue praticamente todos os dias. Sei que vossa senhoria e seu dileto amigo Barbosa Filho, jornalista como o senhor, estão sendo processados pela ex-juíza eleitoral de Taubaté. Cuidado para não se meter com gente poderosa e acabar condenado por essa justiça que, parece, só alcança os pobres. Eu sei que o senhor é pobre. Por isso não abuse, por favor.

O motivo dessa missiva, senhor Irani, são os jornais. Não sei se o senhor já percebeu, mas desde a vitória da nossa candidata Dilma Rousseff (sei que ela foi sua candidata também, não negue), as elites estão tentando uma forma de apear nossa presidenta do poder. Primeiro falaram em impeachment da presidente. Agora um jornalista do Rio de Janeiro, um tal Ricardo Noblat, diz que Lula é um risco para a democracia. Confesso que não estou entendendo nada.

Não sou criança, o senhor deve saber. Quando o Lula lutava contra os baixos salários da categoria dos metalúrgicos, naquelas memoráveis assembleias de trabalhadores no estádio de futebol da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, eu era "peão" na General Motors, em São José dos Campos.

Naquela época, preciso confessar, pouco não me interessava por política de partidos e menos ainda por política sindical. Estávamos em 1979, ano em que o nosso glorioso EC Taubaté foi campeão da antiga Divisão Intermediária, que nem existe mais, justamente contra o seu maior rival, o São José, numa noite mágica no Parque Antártica, que agora virou arena e é um belíssimo estádio de futebol, mas esta é outra história.

Voltando ao Lula, para não perder o fio da meada, pergunto: o senhor acredita mesmo que o Lula é uma ameaça à democracia?

Não foi ele o presidente que promoveu grandes modificações sociais no nosso Brasil? Não foi ele que tirou milhões de pessoas da miséria? Não foi ele que valorizou o salário mínimo? Não foi ele o criador da nova classe média brasileira, que compra geladeira, televisão, computador, telefone celular, viaja de avião, frequenta shoppings e, alguns, até arriscam uma pequena viagem ao exterior, pelo simples prazer de viajar e conhecer lugares diferentes?

Fico pensando se a imprensa, quero dizer a televisão, os jornais, as revistas e as rádios não estão querendo reviver a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que mobilizou milhões de brasileiros entre 19 de março e 8 de junho de 1964 e culminou com a derrubada do governo trabalhista de João Goulart no dia 1º de abril daquele ano. Não concordo que o golpe tenha sido dado em 31 de março. Paro por aqui para não enveredar em uma discussão inútil.

Escrevo-vos estas linhas para chegar ao ponto: sábado passado tomei um táxi par ir á casa de uns amigos. Travei uma discussão, em bom nível, diga-se, com o motorista porque ele, animado, perguntou se eu iria à "manifestação pelo impeachment da Dilma". De chofre respondi que iria à manifestação em defesa do governo Dilma.

O taxista ficou desconcertado. Talvez ele esperasse deste que vos escreve uma resposta afirmativa, acompanhada de críticas ao governo. Disse que ele assistia na televisão informações sobre a marcha golpista e "informava" seus passageiros da "revolução em andamento" sem saber o que estava espalhando.

Ele ainda tentou retrucar: "Mas a gasolina está muito cara". Respondi-lhe que a gasolina é cara em São Paulo porque o governo paulista cobra 25% de ICMS.

Ele insistiu: "Estão dizendo que a Dilma é terrorista, que sequestrou um americano".

Retorqui: "Mais uma vez você não sabe do que está falando. O sequestrado foi um embaixador americano e um dos sequestradores mora em Taubaté. Pelos relatos dos participantes, não havia nenhuma mulher entre os sequestradores".

Enquanto pagava a corrida, dei ao motorista o nome do taubateano que participou do ato heroico contra a ditadura militar e pedi-lhe que procurasse mais informações no Google, uma vez que disse gostar de internet.

Depois, caro senhor Irani, acomodei-me no apartamento e, confesso, figuei de pileque após umas três ou quatro taças bem cheias de vinho.... rsrsrsr.

Por fim, restou uma bela conversa com amigos de luta e duas jovens que me impressionaram pela clareza com que veem o momento político atual.

Estou convencido que, se depender de jovens como as que conheci, o Brasil tem futuro.

O pileque me pôs a dormir profundamente. Acordei no domingo sem sede nem dor de cabeça.

Não houve ressaca.

Muito obrigado pela atenção que der a esta e me desculpe se exagerei.