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segunda-feira, 30 de março de 2015

“PAI, AFASTA DE MIM ESSE ALCKMIN!”

Silvio Prado, professor

“Dá até vontade de chorar”, foi o que ouvi de um professor quando saiu da estação Masp-Paulista, do Metrô, na sexta-feira passada, dia 27. Eu senti o mesmo, depois de um rápido emudecimento provocado pela visão espetacular que acabara de ter. Não parecia uma concentração de trabalhadores levando para as ruas suas justas reivindicações. Tudo lembrava uma imensa torcida de futebol, feliz e extasiada pela conquista de outro campeonato.

Uma visão belíssima que provocou emoção e talvez lágrimas em alguns militantes que por certo não acreditavam que o magistério paulista pudesse mostrar tanta força diante da truculência de um governo que trata o professor estadual como rebotalho, humilha, faz do assédio moral uma prática rotineira, joga um professor conta o outro, o desqualifica, segue privatizando a educação e deseja o sindicato dos professores, a APEOESP, como instrumento inutilizado ou extinto.

De tudo o que foi apresentado na assembléia dos professores estaduais da sexta-feira, nada definiu melhor a grande manifestação do que o refrão de uma paródia criada por um professor do Vale do Paraíba, que usou um trecho da música Cálice – um dos gritos mais fortes contra a ditadura militar – para, em forma de oração, pedir “Pai, afasta de mim esse Alckmin, afasta de mim esse Alckmin”.

A adaptação de um trecho da obra de Chico Buarque e Gilberto Gil fez sabiamente a vinculação de Alckmin com o espírito e certas práticas da ditadura, pois esse é um governo que tem as mãos sujas de sangue (quem não se lembra do massacre do Pinheirinho?) e uma polícia que o obedece fazendo loucuras como um pitbull enlouquecido pela fome, além dos estragos que em vinte anos foram feitos na área da educação e na vida do professor.

Na sexta feira, na Avenida Paulista, mais de 60 mil professores deram uma grande aula de organização política e cidadania. Porém, como se fossem bandidos estiveram cercados por centenas de policiais. Estacionadas junto ao Parque Trianon, estavam dezenas de motocicletas, dessas geralmente usadas nos bairros da periferia para caçar pelas vielas suspeitos de qualquer coisa. Ao lado, uma portentosa tropa de choque, inclusive com armas pesadas, como se do outro lado da rua estivesse um bando perigoso armado até os dentes e capaz de absurdos.

Com seu fardamento especial, homens eretos e endurecidos, quase robotizados, especialistas em trucidar os sem teto e sem terra em desocupações criminosas, ou promover pancadaria em porta de fábricas durante assembléias sindicais, personificavam a política de um governo que acredita muito mais no efeito devastador do spray de pimenta, gás lacrimogêneo, nuvens de balas de borrachas( e também de chumbo) do que na sublimidade de um livro, de uma escola qualificada e de professores tratados como cidadãos.

No vão do Masp, qualquer criança inocente perceberia no rosto do professor uma alegria humana e digna. Nenhum palavrão foi ouvido e escrito em qualquer cartaz. Nenhum resquício de ódio, de vingança ou idéias de separatismo. A manifestação não contou em seu trajeto com bonecos dependurados em viadutos sugerindo o enforcamento de personalidades políticas, como foi visto num certo dia 15 na mesma Grande São Paulo.

Afinal, foi uma grande aula pública, com milhares de cartazes e frases buscando conquistar reivindicações justas e que teve no momento da votação pela continuidade da greve o seu momento máximo. Portanto, a greve continua e na segunda-feira, imposto pela força do movimento, Alckmin está sendo obrigado a sentar-se frente a frente com os professores e seus representantes.

Não dá para esquecer o momento da votação que decidiu pela continuidade da greve, como não dá para esquecer o refrão/oração, inteligentíssimo, pedindo: “Pai, afasta de mim esse Alckmin!” Quanto a esse pedido, será que alguém tem dúvida que já passou da hora de Alckmin ser afastado do governo de São Paulo? Ora, motivos não faltam!