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terça-feira, 31 de março de 2015

TRÂNSITO DA CIDADE E AUTORITARISMO

Silvio Prado, professor

A somatória de fatos absurdos, que vem ocorrendo no centro da cidade desde o domingo, pode ser visto como uma das obras mais agressivas de uma administração com raízes fincadas nas piores práticas do autoritarismo político existente por aqui.

Desde 22 de janeiro de 2012, domingo em que a truculenta polícia militar de Geraldo Alckmin arrancou 8 mil pessoas na base da porrada do bairro do Pinheirinho, São José dos Campos, eu não via uma quantidade de gente tão desrespeitada, humilhada e sem rumo como vi, principalmente ontem, segunda-feira, no centro de Taubaté.

A drástica mudança e inversões do trânsito nas ruas centrais feitas pela prefeitura atingiram milhares de pessoas e causaram dramas que administradores, geralmente trancafiados em confortáveis gabinetes, não são capazes de imaginar.

Ortiz Junior e dona Lola, os autores desse enredo trágico, como se a cidade fosse propriedade exclusiva de um prefeito e um laboratório aberto para experiências de um cientista maluco, se superaram nos absurdos que anteriormente cometeram. E quem saiu pagando caro foi o povo.

Confusão na Santa Terezinha às 9 da manhã de segunda-feira, má
sinalização, inversão de mão.Um caos. Foto: Sabrina Nunes
A dupla, incapaz de dialogar com a população, impôs o seu projeto de mudança do jeito que quis e achou melhor. Quem não gostou que fosse reclamar ao bispo ou botasse o rabo entre as pernas e voltasse para casa ou fosse caminhando para o trabalho. Ou para lugar nenhum.

As cenas vistas no centro da cidade me fizeram lembrar também o clássico do cantor e compositor nordestino Zé Ramalho, “Admirável gado novo”. Milhares de pessoas, tocadas pelo berrante da prefeitura, desinformadas e tontas e sem nenhuma noção de onde desembarcar para ir ao trabalho, ou embarcar para retornar para casa, buscavam informações onde acreditavam encontrá-las. E nem sempre as conseguiam.

Algumas mudanças feitas pela prefeitura não cabem nem mesmo na cabeça de seres iluminados. Por exemplo: quem da dinâmica dupla pensou em fazer da calçada da Faculdade de Direito uma espécie de mini terminal rodoviário? Até um ET vindo de Marte conhece a intensidade do fluxo de pessoas que a qualquer hora do dia se dá por ali e jamais daria ao local o status de ponto de ônibus.

No entanto, Junior e Lola fizeram o impensável e, onde já existe o entra e sai da volumosa Faculdade de Direito, o trânsito obrigatório dos alunos do Progressão e outras escolas, virou local de embarque e desembarque de passageiros. Haja tumulto.

No entanto, a menos de duzentos metros do local está a velhíssima e mal conservada rodoviária. Porém, mesmo velha e mal conservada ela é muito mais confortável e apropriada para acolher passageiros ou embarcá-los do que uma calçada onde pessoas se amontoam, se esbarram e se irritam como consequência de uma serie de mudanças feitas sem ouvir a parte mais interessada, a população.

É claro que a cidade presenciaria um milagre se Ortiz Junior e dona Lola tivessem feito alguma consulta aos vitimados por seus planos. Porém, tucano que se preza não tem por costume perguntar ao povo o que pode ou deve fazer. Servindo geralmente a interesses estranhos ao povo, eles nada perguntam. Por isso, alguns motoristas e cobradores da ABC, impedidos de estacionar na velha rodoviária, não saberão em quais sanitários se “desafogarão” diante de suas necessidades. Não podendo parar no terminal, deverão andar o dia inteiro com o dinheiro recolhido na catraca e provocarão a inevitável atração dos bandidos de sempre.

As mudanças impostas pensam muito mais na comodidade de “seres humanos de quatro rodas” do que nas pessoas normais, inclusive deficientes e idosos. Em primeiríssimo lugar, o automóvel, o trânsito motorizado. O resto, ou seja, o povo, que se adapte ao ritmo e projetos impostos pelo poder de quem manda e se acha dono da vontade coletiva.

Na verdade, o grande projeto envolvendo o trânsito de Taubaté precisa começar pela valorização do transporte coletivo e jamais se resumir a mudanças de percurso ou inversões impostas. Para mudar e transformar de verdade é preciso romper o contrato com a Abc Transportes, quebrar o maldito monopólio, chamar uma outra licitação e adequar esse serviço público aos interesses da cidade e não aos de uma minoria que já ganhou muito com essa situação vexatória.

Nesse novo projeto precisa ser colocado, de forma igual e justa, o papel do chamado transporte alternativo. Porém, quem tem coragem de peitar tantos interesses há décadas estabelecidos e fazer as transformações que o desenvolvimento econômico e social da cidade exige?

Finalizando, sabemos que em toda sociedade civilizada o automóvel de uso privado fica num segundo plano e o transporte coletivo cumpre o seu papel com dignidade. Porém, cidades civilizadas jamais são administradas por gente que já recebeu cartões amarelos da justiça e teme que, antes do apito final, o juiz tenha coragem de lhe mostrar o vermelho.