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sexta-feira, 13 de março de 2015

UM ATO CERTO NO LUGAR ERRADO

Silvio Prado, professor

Em Taubaté, as manifestações convocadas para promover o impeachment da presidente Dilma e depois colocar o país nas suaves e delicadas mãos dos brucutus militares vão acontecer no lugar certo. Bem na praça em frente onde está o comando da policia militar da região. Do jeito que a coisa anda e tão afoitos estão os que se dizem organizadores da marcha pelo retrocesso, se bobear o ato vai se dar dentro mesmo do batalhão. Quem tem a bunda quadrada de tanto ficar fuçando a Internet e nunca saiu na rua para lutar por porra nenhuma, nessas horas fica trêmulo e corre para debaixo da farda da polícia. É o lugar mais seguro para defender ideias antidemocráticas e socialmente atrasadas.

Bem diferente são os movimentos realmente populares e que têm como bandeira principal o aprofundamento da democratização do país e a defesa de seu patrimônio, como é o caso da luta pela Petrobras. Os movimentos populares autênticos, quando se manifestam, nunca procuram o abrigo e a proteção de qualquer aparato militar, pois sabe que é desse aparato que vem “chumbo de borracha”, spray de pimenta, gás lacrimogêneo e muita porrada sobre seu lombo. Porque basta qualquer patrãozinho acenar, lá vem o choque da polícia faminto para dar porrada em trabalhador na porta da fábrica ou na desocupação ordenada por um juiz comprado pelo capital.

Qual lutador social não conhece de perto o tratamento que as polícias brasileiras dão aos trabalhadores organizados em sindicatos, aos sem teto e terra durante suas manifestações? Quem já esqueceu do Pinheirinho e das oito mil vítimas pisoteadas pelas botas da policia militar, em 22 de janeiro de 2012, em São José dos Campos? Quem é que não se lembra da participação da polícia paulista, junto com as forças armadas no massacre de Canudos, onde 20 mil sertanejos foram friamente exterminados? Quem não se lembra da PM paulista participando do golpe de 1964?

Portanto, diante desse histórico da policia militar contra as reivindicações da população brasileira realmente pobre, os direitosos, entreguistas, os teleguiados pela Rede Bobo, os filhotes da veja, do estadão, da folha, ouvintes da jovem pan e os analfabetos políticos em geral escolheram o local certo para fazer o ato errado aqui em Taubaté.

No fundo no fundo, cada um deles torce para que aconteça algo que não seria surpresa e nem milagre acontecer e perguntam: por que a afinadíssima banda da PM não inicia o evento tocando o hino nacional brasileiro, enquanto solenemente são hasteadas bandeiras lá nos mastros que ficam em frente ao batalhão? A massa verdeamarelada babaria o “virundu” com gosto e se sentiria tão patriota quanto no jogo em que o Brasil tomou de sete da Alemanha.

Diante dos fatos, inclusive com a mudança de horários de partidas de futebol para favorecer as manifestações golpistas, não seria surpresa se isso acontecesse. Usando a ideia de que os manifestantes correm perigo durante o ato, os organizadores - coxinhas assumidos e golpistas declarados - são mais lunáticos do que medrosos, e apostam que no dia 15 a PM de São Paulo poderá aderir ao golpe facilitando suas manifestações.

É claro que se houver de fato um golpe contra o mandato da presidente Dilma, a PM de São Paulo, como qualquer corporação militar no Brasil, mais uma vez ficará ao lado dos golpistas, como fez em 1964. É tudo uma questão de tradição e compromisso com o que o país tem de mais atrasado. Enfim, repetindo: os coxinhas, no dia 15, em Taubaté, vão fazer seu ato errado no lugar certo. Impossível sinal mais claro do quanto a democracia no Brasil está correndo risco.