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sexta-feira, 27 de março de 2015

UM A MENOS

Silvio Prado, professor

O irmão mais velho, beirando os dezessete, foi novamente recolhido à Fundação Casa. Dessa vez, por invasão de domicilio, roubo. Da outra, foi por um roubo à mão armada e tentativa de homicídio. O adolescente é violento e todo cuidado com ele é pouco. Dizem que a polícia já o jurou de morte, tantas ele aprontou. Basta completar dezoito, e ele vai sumir do mapa na primeira ocorrência em que for protagonista, sendo grave ou não. Uma tranqueira. Irrecuperável, diz um policial civil.

Mas o irmão mais velho tem por quem puxar: o pai. Agora, depois de encarar uma cana que passou dos cinco anos, o pai do adolescente perigoso já anda novamente pelo bairro. Conversa com um e outro, toma cerveja diariamente na padaria da esquina, acompanha o time do Ferroviário nos jogos da várzea, não dispensa a gritaria do truco. A todo mundo diz agora que é outro homem, nova pessoa, faltando apenas arrumar emprego fixo e renda definida.

Claro, ninguém acredita. O passado da figura não recomenda crença em quaisquer de suas palavras. Sua última cana, entre outras coisas, veio do fato de ter tentado, por apenas mil reais, apagar com dois tiros um motoboy que abusou da confiança do patrão dando sumiço numa grana preta que, disse o motoboy, foi levada por dois encapuzados que cruzaram seu caminho. Uma história muito confusa.

Suspeitas de assassinatos recaem sobre esse ex-detento cheio de conversa mole. Contrariando o que vem dizendo ultimamente, na primeira semana em que esteve fora da prisão já andou descendo o braço na mulher, uma infeliz que se resignou a viver sob o risco de um filho declaradamente bandido e um marido, matador de fama, oficialmente responsável por duas mortes e sob suspeita de outras ocorridas numa cidade que todo mundo acha pacífica e boa de viver.

Portanto, o filho caçula da mulher infeliz, irmão do adolescente recolhido na Fundação Casa e filho preferido do “matador profissional” é que agora, diante do Coordenador Pedagógico, nega por todos os demônios que tem no corpo que não foi ele quem arrombou e levou coisas do carro de um velho professor, estacionado no pátio de uma das escolas da região.

A Ronda Escolar foi acionada, mas ainda não chegou. O mesmo acontece com o Conselho Tutelar. Apesar de todas as evidências que incriminam o adolescente, a direção teme chamar por seu pai.

A diretora e o coordenador conduzem o professor para outra sala, discutem com ele se vale a pena ou não levar o caso em frente. Tenso, o professor diz que sim. A diretora, preocupada, esfrega as mãos e sai andando pela sala repetindo “pensa bem professor, pensa bem.”

“É um direito seu denunciar o menino”, reforça o coordenador, seguindo o mesmo raciocínio da diretora e quase repetindo o mesmo gesto e percurso. “Mas pense nas consequências, professor. Nas consequências. Pense”.

Meia hora depois, chegou a Ronda Escolar e um par de policiais lamentando por tantas ocorrências num dia só. A diretora os recebe com um sorriso burocrático. “Não foi nada, tá tudo resolvido”, diz, e serve a eles um cafezinho feito quase naquela hora.

Quase ao lado, o professor que teve o carro arrombado e roubado faz as contas, calcula o prejuízo e desiste de ir para a sala de aula. Cadernetas e livros, sob palavrões raivosos, ele acaba de atirar no fundo da parte lhe cabe no imenso armário da sala dos professores. Agora, celular em punho, se dispõe a acionar o seguro e não deixar barato. E as consequências? Foda-se tudo, grita ele.

Então, em pouquíssimo tempo, mais forte do que nunca brota, cresce e vai se definindo e parecendo inevitável na cabeça do professor a ideia de exoneração.