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terça-feira, 17 de março de 2015

UMA BOIADA EXEMPLAR

Silvio Prado, professor

Quando as intenções são golpistas tudo é valido. Primeiro você alimenta o povo com ideias de escândalos e corrupção. Noite e dia, dia e noite, meses ou anos inteiros, a massa de analfabetos políticos precisa ser alimentada dessa maneira. Com mentiras, truques, fraudes, dados enganosos, falas de falsos especialistas, montagens criminosas de sentenças jurídicas, manchetes forjadas de jornais e revistas.

Depois, ou ao mesmo tempo, cria-se a ideia de que a pátria está sendo debulhada, roubada, insultada por uma minoria indiferente aos interesses nacionais e obedecendo sempre a alguma ideologia alheia aos interesses populares. A partir daí, os cabeças desse movimento de oposição, com o berrante da mídia na mão, convoca a boiada a cantar o hino da pátria e viver abraçado as cores de sua bandeira.

Boi que é boi, sabemos, é assim mesmo e traz um instinto inviolável: não pode ouvir o berrante tocando que, em massa, segue em sua direção e faz exatamente o que ele ordena. Danem-se a altura ou a resistência da cerca. Ele foi estimulado a pular ou a rompê-la e segue em frente de qualquer jeito, mesmo que depois da cerca esteja a espera-lo as esteiras criminosas de um matadouro. Talvez ele até morra feliz porque, afinal, morreu embandeirado pelas cores da pátria e ao som de seu hino mistificador.

Importante é que esse boi, que um dia teve a pretensão de ser humano, sinta-se preenchido praticando essa violência moral contra si mesmo. Portanto, em tais circunstâncias o homem/boi/patriota sempre vai morrer feliz, ou então, com uma frieza patriótica, se dispõe até a contribuir com o extermínio daqueles que na igreja, nos partidos, na mídia e em todas as instâncias tomadas pelo fascismo, lhe disseram que precisavam ser exterminados.

Enquanto isso não acontece, feito um robô de carne e osso ou um ventríloquo bem afinado, vai repetindo pelas esquinas os mantras criminosos que introjetaram em seus últimos neurônios. Causa pena ver o que sobrou de um ser humano cuja característica mais elevada é o pensamento. Mesmo que seja formado em medicina ou sociologia, parece que a arte de pensar criticamente nunca se apossou de seu cérebro.

É por isso que vemos profissionais como, por exemplo, muitos médicos, apesar do mundão de diplomas dependurados nas paredes de seu consultório, argumentando politicamente com uma profundidade que lembram alunos do ensino fundamental. A leitura semanal de sua bíblia, a Veja, o alimenta e sustenta suas argumentações. Depois, à noite, o Jornal Nacional e uma rápida espiadinha no UOL completam sua formação/informação diária. Dai, haja ideias e expressões preconceituosas. Haja nariz empinado, conclusões absolutas, inquestionáveis e geralmente idiotas, incompatíveis com seu nível de formação.

Assim como as religiões pregam a existência do diabo que precisa ser derrotado para o fiel conseguir sua vida eterna, o fascismo sempre cria um suposto inimigo pelo qual o povo, miserabilizado material e culturalmente, caia em suas jogadas primárias e se disponha com a destruição desse inimigo a conseguir o que precisa: sua salvação social e o eterno desejo de se equipar aos poucos que compõem a classe que tudo domina e impõe sua ideologia.

E dentro do esquema fascista nada mais unifica os analfabetos políticos descritos por Brecht do que a revolta coletiva contra a corrupção, mesmo que os estimuladores dessa revolta sejam declaradamente vinculados a esquemas de corrupção muitas vezes bem conhecidos. É o caso atual brasileiro.

Se um milagre acontecesse e, ressuscitado, Brecht tivesse hoje, domingo, dia 15 de março, ido até a Avenida Paulista ou mesmo em frente ao batalhão da PM em Taubaté, esse dramaturgo alemão veria com os próprios olhos o resultado material de sua afirmação nos milhares de teleguiados pelo berrante midiático que, em nome de interesses supostamente moralizadores, atordoa os ouvidos da boiada verdeamarelada que pensa ainda estar no pasto, mas já adentrou ao matadouro.

Portanto, quando as intenções são golpistas, tudo é valido. Porém, um preceito fascista fundamental tem de ser rigorosamente obtido em primeiro lugar: fazer com que massas de analfabetos políticos se desumanizem um pouco mais e sejam assim transformadas numa imensa e homogênea boiada, capaz de reproduzir impensadamente mantras, palavras de ordem e todo truque e bobagem que movimenta o carrossel falsamente patriótico, direitoso e fascista.

Sustentadas sobre duas pernas politicamente bambas, uma cabeça descerebrada, corpo envolvido com as cores da bandeira e a boca soltando babas de hino pátrio, a imensa boiada invade ruas, avenidas e  praças, feliz da vida por ter adentrado ao matadouro.