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quinta-feira, 12 de março de 2015

VERDEAMARELICE

Silvio Prado, professor

Como todo idiota que após o banho ajeita cuidadosamente os cabelos e não duvida do espelho, ele pegou um trapo verdeamarelado e fez o mesmo servir de camiseta, calça, cueca, meia, sapato, sangue e merda grudada pelo corpo inteiro.

Depois, enquanto almoçava, pensou em algumas palavras de ordem que gritaria antes de se atirar do décimo quinta andar do prédio mais próximo e apropriado para o ato tão anunciado. Diante da importância que deu ao acontecimento, ele se propôs a comer pouco. Um bife magro, bem passado, quase nada de arroz e feijão, alface, três rodelas de tomate bem cortadas, um copo de suco de laranja.

Muito rapidamente, outras pessoas vestidas do mesmo jeito que ele foram chegando e tomando o restaurante por inteiro. O local ficou quase insuportável. Tudo gente séria, compenetrada, poucas palavras, compondo uma paisagem verdeamarelada que acabou provocando lagrimas num casal de idosos. Os poucos garçons se viravam nos trinta para atender tanta gente, mesmo que todos quisessem comer moderadamente para evitar problemas desagradáveis no momento de se atirar do décimo quinto andar.

Na verdade, o único problema do dia se deu com os elevadores, que subiam sempre perigosamente lotados devido a ânsia dos participantes de um evento que prometia entrar para a história de um povo bonito, ingênuo e incorrigivelmente abestalhado.

No décimo quinto andar ocorreu um principio de confusão, mas tudo acabou dando certo. O plano inicial propunha que todos gritassem uma só palavra de ordem e pulassem juntos, de mãos dadas. Mas não foi possível. O espaço era pequeno demais para tanta gente. Então a solução foi a de que cada um deveria gritar sua palavra de ordem preferida e, solene e patrioticamente, se atirasse na direção do asfalto.

E todos cumpriram o prometido, mesmo que o primeiro a saltar não tivesse ganho asas durante o salto e nem saiu voando, como havia prometido uma grande emissora de tevê a cada um que se dispusesse a esse ato arrojado na direção do futuro.

No entanto, todos saltaram, mesmo que o primeiro da fila, como se fosse um monte de merda embrulhado num pacote verdeamarelado tivesse se espatifado em mil pedaços sobre o asfalto preto da avenida.

Moral da história:

“De tanto se lambuzar de plim plim, gente idiota começa tudo pelo fim.”