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quarta-feira, 1 de abril de 2015

31 DE MARÇO

Silvio Prado, professor

Durante o mês de março de 1964, na mais importante escola religiosa da cidade a criançada ganhou do diretor, que era padre, a obrigação de rezar todo dia para que o comunismo não fosse implantado no Brasil.

Não apenas rezar na entrada das aulas, mas também em casa, quando fosse dormir e na hora de levantar, isso antes do banho e do café da manhã. Era preciso, pela oração, espantar essa terrível ameaça.

“Se a praga do comunismo for implantada por aqui...” E lá vinha um rosário de desgraças que não saiam da cabeça de quem as ouvia. E a criançada, temerosa, rezava mesmo. Até hoje, passados 50 anos, portanto, homens já cheios de netos, mas repletos de ideias anacrônicas, ainda enxergam ameaças comunistas sobre o país, conforme o modelo desenhado pelo padre diretor da escola religiosa da década de 60. E alguns, instigados pelo que sobrou de sua fé ingênua, ainda rezam contra a “praga do comunismo”. Quando sobra um tempinho, eles até vão para as redes sociais e compartilham essa bobagem.

Mas naquele mês de março de 1964, em muitas famílias o clima era de medo. Não bastasse a oração recomendada pelo padre diretor, em algumas casas filhos viam pais apreensivos, conversando em voz baixa, as mães e suas amigas se juntando na reza do terço, fazendo a tradicional novena. E diante de Deus, fechando o quinto mistério do terço, o pedido aos céus era feito sob muita emoção e medo. O vozerio afinado da mulherada não dava sossego aos poderes celestiais.

Certa noite, em uma das casas da região central, uma surpresa: a esposa de um importante coronel lotado num dos quartéis da região esteve presente e, depois da rezação costumeira, traçou um panorama geral da situação do país e encheu ainda mais de medo a mulherada classe média da nossa provinciana cidade. Dali para frente, muitas tiveram uma “clareza maior” da situação política nacional. A maioria delas deixou de repreender os maridos pelo empenho com que se entregavam aos preparativos destinados a golpear e arrancar do poder um governo comprometido com ideias que proibiriam a religião e fechariam igrejas.

Quando, em Minas, no dia 31 de março, o general Olimpio Mourão Filho precipitou os acontecimentos e botou as tropas na rua, até mesmo os que tramavam o golpe junto com esse general foram pegos de surpresa. Quase sem reação, e conhecedor da extensão das forças que o cercavam, o presidente João Goulart, sob criticas pesadas do cunhado Brizola, deixou Brasília e se refugiou no Uruguai.

Não tinha jeito. O esquema militar golpista era fortíssimo e muito bem organizado. Qualquer resistência seria cavar rios de sangue pelo país afora. Então, de imediato, um trio de fardados, sem nenhuma reação contrária, assumiu o poder.

Nesse mesmo dia 31, quase primeiro de abril, tropas do exército com seus tanques e canhões, sobre um imenso trem, estacionaram por algum tempo na estrada de ferro que corta o centro da cidade, assim como ainda hoje acontece com trens carregados de carga que aqui param para facilitar a passagem de um outro vindo em sentido contrário.

Nesse rápido tempo, o padre diretor, eufórico com o sucesso do golpe, foi com uma boa quantidade de alunos saudar os bravos militares que, sobre os vagões do imenso trem, ficaram por horas estacionados tão próximos de sua escola. Puxados pelo padre, em coro, a criança rezou e agradeceu pelo feito.

Como já foi dito, aquelas crianças de ontem, hoje velhos senhores de cabelos brancos, ainda rezam, agora não mais agradecendo, mas pedindo para que o fantasma que seus heróis não conseguiram matar parem de assustá-los outra vez. Quanto ao padre, depois de sua vida dedicada e bem sucedida, virou nome de rua na periferia da cidade, enquanto outros, também dentro de batinas negras, agora o substituem com o mesmo besteirol de antes.