Páginas

quarta-feira, 29 de abril de 2015

FALTA MERENDEIRA NA “GENTIL
DE CAMARGO”. É A TERCEIRIZAÇÃO

Silvio Prado, professor

Cerca de quatrocentos alunos de uma escola estadual de Taubaté, a EE Gentil de Camargo, localizada no Parque Três Marias, ficaram hoje pela manhã sem a merenda rotineiramente distribuída pela escola. Motivo: a merendeira, trabalhando na Gentil de Camargo como funcionária terceirizada, encontrou trabalho mais vantajoso na iniciativa privada e deixou imediatamente seu posto.

No momento em que se discute a terceirização do trabalho em todos os setores da economia brasileira, é importante colocar a questão que se dá na escola Gentil, pois ela é exemplar e didática para explicar como esse sistema é nocivo não só para o trabalhador em si, mas para a comunidade em geral.

Antes que uma empresa terceirizada assumisse a merenda daquela escola, lá trabalhavam duas merendeiras contratadas através de concurso pelo Estado, que, depois da terceirização da merenda, ficaram sobrando na escola e acabaram transferidas para outra unidade escolar de Taubaté.

Ora, a pergunta que todo mundo fez na época e que se deve fazer novamente é a seguinte: se a escola já possuía em seu quadro duas funcionárias contratadas por concurso para produzir a merenda dos alunos, por que então terceirizar o serviço? Qual lógica orienta esse comportamento do Estado? Por que o Estado, governado há vinte anos pelo PSDB adota como normal tamanho absurdo?

A verdade é que no mundo de desencantos do serviço público a terceirização já montou seu roteiro de dramas dentro da escola. Conversei outro dia com merendeiras terceirizadas e constatei coisas absurdas. Dentro de um órgão público vi práticas trabalhistas que violentam direitos fundamentais do trabalhador, sem contar os baixos salários, um verdadeiro insulto à dignidade humana.

Em uma rede de escolas, onde se propõe formar cidadãos críticos, temos hoje o avesso de tudo aquilo que se prega como justo e ideal. Por isso, muitas vezes a mesma sala que comporta alunos que tiveram a Ética ou Cidadania como temas de aula, minutos depois recebe funcionários terceirizados que, contratados de forma precária e sob salários aviltados, vão fazer a limpeza ou a manutenção da sala.

Um outro aspecto do problema: pelo menos em Taubaté, a maior parte de funcionários terceirizados dentro das escolas estaduais é composta por mulheres. E são elas que, além do serviço de limpeza e manutenção, são incumbidas de fazer trabalhos agressivos à sua condição física. Elas carregam centenas de carteiras, mesas, arrastam pesados armários, transportam pesados sacos de lixo, varrem ou lavam a escola inteirinha num ritmo de trabalho que produz desgastes visíveis. Muitas acabam adoecidas e não contam com o respaldo médico necessário.

Tudo isso por salários miseráveis e sob contratos que geram relações trabalhistas e condições de trabalho que lembram muitas vezes a situação dos trabalhadores bolivianos "escravizados", em São Paulo, por empresas clandestinas que produzem alucinadamente para as grandes marcas do país.

Portanto, a precariedade do serviço terceirizado imposto na vida escolar de São Paulo deixou hoje, na escola Gentil de Camargo, cerca de 400 alunos sem merenda. Pode ser que o problema continue pelos dias que virão, pois a lentidão do Estado em resolver os problemas que ele mesmo cria é simplesmente vergonhosa.

O exemplo que vem de Taubaté é apenas uma minúscula unha do corpo apodrecido que os tucanos - Serra, Alckmin e companhia - através do processo de terceirização plantaram dentro de mais de 4 mil escolas públicas paulistas.